A terceira fase da Operação Carbono Oculto coloca o Banco Genial e sua alta gestão no epicentro de uma investigação que movimenta cifras bilionárias no setor de combustíveis. Promotores do Gaeco e a Fazenda paulista apontam a instituição como peça ativa na lavagem de capitais de uma organização criminosa investigada por sonegar R$ 7,6 bilhões em impostos. A operação deflagrada nesta quinta-feira mira diretamente a arquitetura financeira que teria permitido a ocultação de patrimônio.
O circuito financeiro que intriga investigadores
Segundo os autos da ação cautelar fiscal, o esquema operava em um circuito fechado desenhado para dissimular a origem dos recursos. A Usina Itajobi, controlada pelos investigados Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme, injetou R$ 176 milhões no fundo Radford, sob administração da Genial.
Esse fundo, por sua vez, aplicou os valores em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo próprio banco. Com esse lastro, a instituição concedeu empréstimos a empresas de fachada — Berna e Branson — registradas em nome de “laranjas”.
Para onde o dinheiro foi na prática
A Promotoria detalha o destino final dos recursos, revelando a aquisição de ativos reais com dinheiro da organização, mas registrados em terceiros:
- Branson: comprou a distribuidora Terrana (Tobras), atuante no varejo de combustíveis.
- Berna: adquiriu cotas do fundo imobiliário Los Angeles, detentor de cerca de 20 imóveis — postos e terrenos na zona norte de São Paulo — avaliados em mais de R$ 200 milhões.
Na visão dos promotores, os investigados usaram capital próprio para comprar empresas e imóveis, blindando o patrimônio sob alienação fiduciária ao banco.
A tentativa de blindagem frustrada
Um ponto sensível da investigação relata a reação da instituição no dia da primeira fase da operação, em agosto de 2025. A Genial teria tentado liquidar os CDBs e repassar os créditos das dívidas de volta ao fundo Radford. Para a Procuradoria Geral do Estado (PGE-SP), a manobra configura fraude à execução fiscal. A Justiça acatou o pedido e manteve o bloqueio dos R$ 176 milhões.
O elo direto com a diretoria
Relatórios do Gaeco indicam trânsito livre dos investigados na cúpula do banco. O diretor Humberto Arthur Tupinambá Neto — alvo de mandados de busca e apreensão ao lado dos irmãos André e Bruno — realizava reuniões presenciais com Mohamad Mourad na sede da instituição, no Rio de Janeiro, e em escritórios em São Paulo. A investigação apura a atuação dele na transição das operações do grupo para a Genial, no segundo semestre de 2024, após rompimento com a gestora Reag.
O que diz a instituição
Em nota, o Banco Genial afirma que Humberto Tupinambá não integra a diretoria nem o quadro societário desde maio de 2024, data de sua destituição — os fatos apurados, contudo, são anteriores. A instituição sustenta que forneceu voluntariamente as informações ao Gaeco, realizou comunicações ao COAF e atuou dentro das normas vigentes com os dados disponíveis à época. Após os fatos, adotou medidas de governança, instaurou inspetoria interna, revisou processos de crédito e renunciou à administração do fundo Radford.
O que observar daqui para frente
O desbloqueio dos R$ 176 milhões depende de decisão judicial sobre a validade da fraude à execução alegada pela Fazenda. Paralelamente, a destituição do diretor e a renúncia à gestão do fundo sinalizam tentativa de contenção de danos reputacionais e regulatórios. Para o mercado, o foco recai sobre a solidez dos controles de compliance (Know Your Customer) em operações de crédito lastreadas em fundos exclusivos — e eventuais reflexos na captação e no rating da instituição nas próximas semanas.
