A Petrobras confirmou que suas primeiras unidades 100% dedicadas à produção de combustível sustentável de aviação (SAF) só começarão a operar em 2030 — um ano depois do previsto. O anúncio, feito pelo diretor William França, reorganiza o cronograma da estatal, mas não altera a meta de atender às exigências internacionais de emissões a partir de 2027.
O atraso atinge a refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP), que passaria a operar com capacidade de 16 mil barris por dia. As plantas do Complexo Boaventura (Itaboraí, RJ) e da Replan (Paulínia, SP), somando 29 mil barris/dia, ficam para 2031. A pergunta que fica: a janela de 2027 a 2030 está coberta?
O coprocessamento garante a entrega no curto prazo
Sim. A estratégia da companhia para o período imediato não depende das unidades dedicadas. A Petrobras já produz SAF via coprocessamento na Refinaria Reduc (RJ), misturando matéria-prima renovável ao petróleo. Nas refinarias Revap (SP) e Regap (MG), os projetos estão implantados e em certificação. A Replan deve entrar nessa rota até dezembro.
Essa abordagem permite oferecer volumes certificados para o mercado já nos próximos anos. França foi direto: “Estamos preparados para atender ao Corsia de 2027 até 2030”, referindo-se ao esquema global de compensação de carbono da aviação civil internacional.
Por que o adiamento das unidades dedicadas?
O plano de negócios 2026–2030 previa 2029 para a RPBC. O novo cronograma reflete ajustes de engenharia, licenciamento e a complexidade de construir plantas que processam apenas insumos renováveis — sem mistura com petróleo. Unidades dedicadas exigem cadeias de suprimento próprias, logística de resíduos e certificações mais rigorosas.
- RPBC (Cubatão, SP): 16 mil bpd — 2030
- Complexo Boaventura (Itaboraí, RJ): 19 mil bpd — a partir de 2031
- Replan (Paulínia, SP): 10 mil bpd — a partir de 2031
Juntas, somariam 45 mil barris/dia de capacidade instalada a partir de 2031. O volume representa um salto relevante frente à produção atual por coprocessamento, ainda limitada.
A ponte com o agronegócio é a aposta estrutural
O diretor destacou que a transição energética da Petrobras passa, cada vez mais, pelo campo. A lista de matérias-primas em estudo ou já em uso inclui etanol, óleo de milho, soja, sebo bovino, óleo de cozinha usado e outros resíduos. A ideia é transformar refinarias em biorrefinarias integradas às cadeias agrícolas.
Essa integração reduz risco de suprimento, barateia a logística e abre caminho para diesel renovável, SAF e bioprodutos de maior valor agregado. O novo plano de negócios, esperado para o fim do ano (cobrindo 2027–2031), deve detalhar investimentos e metas de participação de insumos agrícolas no portfólio.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o cronograma revisado se sustenta: a velocidade de certificação das rotas de coprocessamento já implantadas, a concretude dos contratos de fornecimento de resíduos e óleos vegetais em escala, e o desenho final do plano de negócios 2027–2031. O mercado de aviação verde no Brasil depende, agora, menos de anúncios e mais de entregas certificadas nos próximos 24 meses.
