Economia

Café atinge recorde de 67,6 mi de sacas: o segredo por trás do número

Plantação de café no Brasil com safra recorde de 67,6 milhões de sacas
Brasil bate recorde histórico com 67,6 milhões de sacas de café na safra 2024

A safra brasileira de café acaba de romper a barreira histórica das 67,6 milhões de sacas, volume nunca antes registrado pelo país. O salto não é obra do acaso: une o ciclo natural de bienalidade alta, clima cooperativo nas principais origens e, crucialmente, o retorno financeiro das últimas colheitas que permitiu ao produtor investir pesado em manejo e tecnologia. O resultado imediato é uma produtividade média nacional de 34,6 sacas por hectare — um avanço de 14% frente ao ciclo anterior.

O motor invisível: dinheiro no bolso vira tecnologia no campo

O aumento de área plantada — 1,95 milhão de hectares em produção, alta de 5,1% — explica parte do volume. Mas o diferencial está na eficiência. Com os preços internacionais e internos em patamares remuneradores nas safras recentes, o cafeicultor elevou o uso de insumos, corretivos e ferramentas de agricultura de precisão.

Esse movimento transformou potencial genético em sacas reais. A área em formação também cresceu 1,4%, chegando a 402 mil hectares, sinalizando que a aposta na expansão continua para os próximos ciclos.

Estados que surpreendem: Roraima e Goiás roubam a cena

A média nacional esconde disparidades regionais relevantes. Enquanto Minas Gerais consolida seu protagonismo, outras origens mostram produtividades de fazenda de alto padrão:

  • Roraima: 66,7 sacas/hectare
  • Goiás: 50,8 sacas/hectare
  • Espírito Santo: 41,6 sacas/hectare

Esses números indicam que a fronteira agrícola do café não apenas avança, mas amadurece tecnicamente em novos territórios.

Arábica explode; Conilon sente o clima

A divisão entre as duas espécies desenha cenários opostos. A arábica, da qual o Brasil é líder mundial absoluto, disparou 35%, totalizando 48,2 milhões de sacas. Já o conilon, onde o país ocupa a vice-liderança global, recuou 6,6%, ficando em 19,4 milhões de sacas.

O motivo da queda no conilon tem endereço certo: o Espírito Santo, maior produtor da variedade, sofreu com florada irregular, derrubando a colheita estadual em 5,4%. Enquanto isso, Minas Gerais colheu os frutos de uma granação uniforme, elevando sua safra total em 38,2% para 35,6 milhões de sacas.

O tabuleiro global: estoques baixos ditam as regras

O recorde brasileiro chega em momento cirúrgico para o mercado internacional. Os estoques mundiais, que somavam 37,5 milhões de sacas na safra 2021/22, encolheram ano a ano até atingirem 22 milhões na temporada 2025/26. A queima de reserva ocorreu justamente pelas quebras simultâneas no Brasil e no Vietnã nos ciclos anteriores.

Agora, a oferta global reage: o USDA projeta produção de 190 milhões de sacas (+6,1%) e consumo de 180 milhões (+3,6%). A demanda não vem apenas dos tradicionais Europa e EUA; a China emerge como vetor de crescimento estrutural, alterando a geografia do consumo.

O que observar daqui para frente

O superávit da safra atual (produção acima do consumo) inicia a recomposição de estoques, o que tende a pressionar as cotações para baixo no curto prazo. Contudo, a equação permanece sensível. Variáveis como o clima no cinturão cafeeiro vietnamita, a taxa de câmbio e o ritmo de expansão do consumo asiático definirão se o alívio nos preços será passageiro ou estrutural. Para o empresário do setor, o sinal é claro: a eficiência conquistada nesta safra recorde será o ativo decisivo nos ciclos de margens mais apertadas.