Justiça

Internet livre nas vésperas da eleição: o que está em jogo no STF

Ministro Cristiano Zanin do STF analisa pedido de internet móvel gratuita nas vésperas da eleição de outubro
STF julga ação que pode garantir dados móveis grátis 72 horas antes da eleição para combater exclusão digital

CNTE e Partido Verde acionaram o Supremo para obrigar operadoras a liberar dados móveis nas 72 horas anteriores ao pleito de outubro. A medida mira um abismo silencioso: milhões de eleitores só acessam WhatsApp e Instagram porque seus planos acabam antes do fim do mês.

O pedido caiu nas mãos do ministro Cristiano Zanin na terça-feira (22). Se aceito, muda a forma como o brasileiro mais pobre se informa nos dias decisivos da campanha.

O abismo dos dados que acabam no meio do mês

Um estudo do Sleeping Giants Brasil expõe a dimensão do problema: 64,1 milhões de adultos conectados — um em cada três — ficam sem franquia ao menos um dia por mês. Desses, 29,5 milhões passam oito dias ou mais no escuro digital.

Sem dados, o cidadão não abre portais de notícias, não pesquisa propostas, não checa fatos. Fica restrito ao que chega nos aplicativos de mensagens e redes sociais que não consomem franquia — justamente onde a desinformação política prolifera.

Zero-rating: a armadilha do “grátis” que não é neutro

Planos populares oferecem WhatsApp, Instagram e Facebook sem descontar da franquia. Parece vantagem, mas cria um corredor único de informação:

  • Notícias profissionais ficam fora do alcance
  • Mecanismos de busca tornam-se inacessíveis
  • Conteúdo viral — verdadeiro ou falso — circula sem contraponto

Para as entidades por trás da ação, isso viola a igualdade política. Quem tem plano ilimitado navega livre. Quem depende de pré-pago vota no escuro.

Democracia Sem Franquia: a coalizão por trás do pedido

A iniciativa reúne 19 organizações da sociedade civil. Nasceu de pesquisas do Sleeping Giants Brasil, movimento criado em 2020 inspirado na versão americana de 2016, focado em combater discurso de ódio e desinformação nas plataformas.

A tese central: acesso a jornalismo profissional funciona como camada de verificação. Sem ela, o eleitor fica refém do que circula em grupos fechados e algoritmos de engajamento.

O calendário apertado e o que observar

As eleições gerais ocorrem em 4 de outubro. Eleitores escolherão deputados estaduais e distritais, federais, senadores, governadores e presidente. Faltam menos de duas semanas para o prazo das 72 horas.

Se o STF deferir a liminar, operadoras terão dias para implementar o desbloqueio técnico. O precedente valerá também para pleitos municipais futuros.

Daqui pra frente, acompanhe: a decisão de Zanin, a posição da Anatel e a capacidade técnica das teles de ativar a gratuidade em escala nacional num intervalo tão curto. O desfecho definirá se a igualdade de acesso à informação sai do papel em 2026 — ou fica para a próxima legislatura.