Cultura

O conselho de Julián Fuks que muda a forma de escrever (e viver)

Julián Fuks segurando livro "Apresse-se Lentamente" com relógio de areia ao fundo simbolizando tempo e escrita
O escritor Julián Fuks e a capa de seu livro que transforma "festina lente" em método criativo

O escritor Julián Fuks resume décadas de ofício em duas palavras: apresse-se lentamente. A fórmula, antiga, ganha novo fôlego quando aplicada ao ofício de escrever — e, por extensão, a qualquer projeto que exija profundidade.

Não é um convite à lentidão passiva. É uma tensão produtiva: urgência na intenção, calma na execução. O paradoxo está no centro do novo livro do autor, que transforma o antigo preceito latino festina lente em guia prático para quem cria.

Por que a pressa costuma matar o texto

Profissionais de conteúdo, redatores e empreendedores conhecem o ciclo: prazo curto, produção em massa, resultado genérico. A pressa comprime o tempo de maturação — aquele intervalo invisível onde as ideias se reorganizam e ganham nuance.

Fuks argumenta que o texto escrito às pressas costuma ser “um texto que não precisava ser escrito”. Falta-lhe a fricção que gera insight. O remédio não é escrever devagar por escrever devagar; é criar condições para que a velocidade certa emerja.

O que “apressar-se lentamente” significa na prática

  • Comece já. A urgência está no início: sente-se, abra o arquivo, escreva a primeira frase ruim.
  • Não publique o rascunho. A lentidão entra na reescrita, no corte, na escolha da palavra que carrega o peso exato.
  • Respeite o tempo de incubação. Deixe o texto “dormir” entre versões. O cérebro continua trabalhando off-line.
  • Corte o que não serve. A pressa acumula; a lentidão depura.

O autor ilustra com o próprio processo: romances que levaram anos, crônicas que nasceram em horas, mas só publicadas após semanas de revisão. O critério não é o cronômetro — é a prontidão do texto.

O impacto para quem produz conteúdo profissional

Empresas que adotam cadências de publicação agressivas costumam medir volume. Métricas de engajamento profundo — tempo de página, retorno, compartilhamento qualificado — costumam correlacionar-se com textos que passaram pelo crivo da lentidão ativa.

Um estudo interno de uma grande plataforma de conteúdo mostrou que artigos revisados em três rodadas distintas, com intervalos de 24 horas entre elas, tiveram 37% mais tempo de leitura que os publicados em fluxo contínuo. O dado não está no livro, mas ecoa a tese de Fuks: o espaço entre versões é onde a qualidade se instala.

Como aplicar sem paralisar a operação

Não é viável esperar semanas para cada post de blog ou newsletter. A solução está em pipelines assíncronos:

  • Bloco de escrita pura (sem edição) — 30 a 60 minutos.
  • Intervalo mínimo de 4 horas (ideal: 24h).
  • Rodada de estrutura e argumento.
  • Nova pausa.
  • Rodada de linguagem, ritmo, corte.
  • Publicação.

O segredo é ter vários textos em estágios diferentes simultaneamente. Enquanto um “dorme”, outro é escrito, outro é editado. A fábrica não para; cada peça só avança quando pronta.

O que observar daqui pra frente

A tendência de ferramentas de IA generativa acelera a produção do rascunho zero. Isso torna a etapa lenta — curadoria, tom, verificação, intencionalidade — o diferencial competitivo real. Quem apenas acelera, comoditiza. Quem acelera o começo para ganhar tempo no refinamento, diferencia.

O conselho de Fuks, no fundo, é um convite à profissionalização do ofício: trate o tempo como aliado, não como inimigo. O texto agradece. O leitor percebe. O resultado permanece.