Economia

Fleury dispara 50%: o segredo por trás da alta que ninguém esperava

Gráfico de alta da ação FLRY3 Fleury 50% em 2024 superando Ibovespa
Ação do Fleury (FLRY3) dispara quase 50% em 2024, triplicando o retorno do Ibovespa.

A ação do Fleury (FLRY3) acumula alta de quase 50% em 2024, triplicando o ganho do Ibovespa e deixando concorrentes do setor de saúde para trás. O movimento pegou analistas de surpresa e o BTG Pactual foi a campo para decifrar o que move o papel.

A conclusão do banco é direta: a valorização não vem de lucros maiores, mas de uma expansão agressiva dos múltiplos de valuation. Em resumo, o mercado passou a aceitar pagar mais caro pela mesma geração de caixa.

O fim da tese defensiva

No início do ano, a narrativa dominante era a de “porto seguro”. Com a deterioração macroeconômica, investidores buscavam ativos de baixa alavancagem e demanda resiliente — características que definem o Fleury.

Mas a tese ruiu em agosto. Quando o apetite por risco voltou (risk-on), o papel não corrigiu: acelerou. Isso forçou os analistas a descartarem o fator defensivo como motor principal da alta.

O fenômeno global que explica o movimento local

Saúde costuma ser um negócio regional, ditado por regulações e consolidações locais. No entanto, o BTG identificou um padrão sincronizado: pares globais de diagnóstico passaram pela mesma expansão de múltiplos em 2024.

O relatório divide esses pares em três blocos para fins de comparação:

  • Laboratórios tradicionais de grande escala: Quest Diagnostics, Labcorp, Eurofins.
  • Diagnóstico de precisão e oncologia: Nichos de alto crescimento estrutural.
  • Laboratórios asiáticos: Mercados com penetração ainda incipiente.

O Fleury se encaixa no primeiro grupo. Embora não cresça tanto quanto os nichos de precisão, “surfou” a mesma onda de re-rating que elevou os gigantes globais.

Valuation: o prêmio histórico se mantém, mas a distância persiste

Hoje, os pares globais tradicionais negociam entre 16x e 21x o lucro estimado para os próximos 12 meses. A mediana desse grupo está 35% acima do múltiplo do Fleury, que roda a 14x lucro.

Historicamente, esse prêmio de 35% é a norma. O detalhe crucial é que, desta vez, ambos os lados subiram juntos. Não houve fechamento de gap; houve uma elevação generalizada do patamar de preço.

Por que o BTG segue “neutro” e prefere a concorrente

Apesar da alta, o banco manteve a recomendação neutra para Fleury e reiterou preferência pela Rede D’Or (RDOR3). A lógica repousa em três pilares:

  • Crescimento orgânico: Fleury entrega um dígito alto, alinhado ao mercado privado brasileiro, mas sem investimentos agressivos para ganhar share.
  • Pipeline de investimentos: Rede D’Or possui capacidade de expansão e aquisições muito superior.
  • Valuation relativo: Negociando a múltiplos semelhantes, a Rede D’Or oferece assimetria mais favorável.

“Não enxergamos razão estrutural para Fleury ser negociada com prêmio em relação à Rede D’Or”, resume o analista Samuel Alves.

O que sustenta o papel no curto prazo

Sem catalisador claro para uma queda dos múltiplos no horizonte próximo, o BTG destaca um fator residual: a “opcionalidade de M&A”. A percepção de que a companhia poderia ser alvo de aquisição ou compradora relevante diminuiu, mas ainda existe.

Essa expectativa residual atua como um colchão para a cotação, impedindo correções bruscas enquanto o cenário global para diagnóstico permanecer favorável.

O que observar daqui para frente

O investidor deve monitorar dois gatilhos principais. Primeiro, a sustentabilidade do re-rating global: se os pares internacionais corrigirem, o Fleury tende a seguir. Segundo, a execução da estratégia orgânica da CEO Jeane Tsutsui — qualquer sinal de aceleração de investimentos ou aquisições mudaria a tese de “crescimento alinhado ao mercado” para algo mais agressivo.

Enquanto isso, a ação de R$ 12 bilhões em valor de mercado segue cara frente à própria história, mas barata frente aos pares globais. A assimetria, por ora, favorece quem aposta na manutenção do otimismo setorial mundial.