O Brasil entrou em uma zona de perigo fiscal onde a temperatura subiu para 42 graus, e o termo “insustentável” deixou de ser previsão para virar diagnóstico médico. A frase é do economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e ecoa como um alerta vermelho para quem tem capital exposto no país. Mas o risco não para nas contas públicas: a institucionalidade treme, e o remédio exigirá cirurgias que nenhum candidato à Presidência parece disposto a fazer.
Em evento de lançamento do C-Level, Fraga não usou eufemismos. Disse que o próximo governo será forçado a agir contra a dívida, mas confessou dormir menos por causa do Supremo do que pelo fiscal. A pergunta que fica no ar: o Congresso terá estômago para o que vem pela frente?
O cabo de guerra que empurra o juro real para as alturas
Hoje, a política fiscal briga com a monetária em um cabo de guerra que só tem um perdedor: o tomador de crédito brasileiro. O governo se financia no curto prazo pagando 9% a 10% acima da inflação. Para comparar, os EUA captam a 20 anos pagando 3% reais. Essa aritmética não fecha, e o mercado de crédito já dá sinais de asfixia — do varejo ao crédito pessoal.
- Juro real curto (Brasil): 9% a 10% a.a.
- Juro real longo (EUA): ~3% a.a.
- Déficit primário estimado: próximo de 1% do PIB.
- Gastos tributários: saltaram de 2-3% para 5-6% do PIB em três décadas.
Fraga compara o momento ao aquecimento global: não faz sentido descobrir o ponto de não retorno ultrapassando-o. “A gente não quer testar isso”, resumiu. O risco de uma crise de dominó no crédito é real e bate à porta das empresas médias.
Três reformas que separam o Brasil do abismo
Para evitar o colapso, o economista elencou três frentes inadiáveis. Nenhuma é popular, todas mexem em interesses organizados e todas exigem tempo — o ativo mais escasso no ciclo eleitoral.
1. Previdência: unificar a idade em 67 anos
O sistema atual é “gigante e generoso” para a demografia brasileira, e continuará crescendo. A proposta defendida por Fraga e especialistas prevê idade mínima única de 67 anos para homens e mulheres. “É botar na mesa, discutir e votar”, disse. O ganho não é imediato, mas sinaliza compromisso com a solvência de longo prazo.
2. Administrativa: enfrentar o patrimonialismo
A folha de estados e municípios é um buraco negro. Por trás dela, segundo Fraga, está a “relação com o Estado, o patrimonialismo, a captura do Estado”. Cortar privilégios e ganhar eficiência aqui ataca a raiz do custo Brasil, mas esbarra em corporações poderosas.
3. Tributária: fechar a torneira dos gastos tributários
Renúncias fiscais consumiam 2% a 3% do PIB há 30 anos; hoje sugam 5% a 6%. Fraga descarta “choque total” e defende redução gradual. “É uma briga inglória”, admitiu, mas necessária para baixar a carga efetiva sobre quem produz.
O segredo que ninguém conta sobre o ciclo eleitoral
Fraga apontou um dilema desconfortável para 2026. De um lado, o risco institucional associado ao bolsonarismo; do outro, a condução econômica do atual governo. “Seria bom ter um segundo turno que permitisse um debate mais aprofundado”, afirmou. O “cardápio” oferecido aos eleitores, nas palavras dele, é “muito desafiador” diante das necessidades reais.
O desaquecimento da economia, segundo o ex-dirigente, está “encomendado”. A taxa de investimento rasteja em patamares baixíssimos, e o Brasil atrai capital aquém do potencial. Para reverter, seria necessário um salto de confiança que depende justamente das reformas travadas.
O que observar daqui para frente: o relógio da frustração social
O fechamento do diagnóstico traz um aviso prático para gestores de risco: a distância entre a expectativa criada por alívios momentâneos e a realidade do bolso do cidadão gera “decepção profunda, que facilmente se converte em revolta social e instabilidade política”.
Fraga amarra a ponta final: não se separa fiscal de pobreza, informalidade e produtividade. O Bolsa Família é essencial, mas a emancipação real passa por educação de base, saúde preventiva e mobilidade social. Enquanto o debate público girar em torno de transferências e não de capacidades, a febre de 42 graus tende a persistir — e o juro real, a subir.
Para o investidor: monitore a tramitação da reforma tributária no Senado (o alvo dos 5-6% do PIB em gastos tributários), a sinalização de meta de superávit primário crível e, acima de tudo, a capacidade do Congresso de frear avanços institucionais que assustam o capital de longo prazo. O paciente está na UTI; a receita existe, mas faltam os médicos dispostos a aplicá-la.
