O Carrefour Brasil virou a chave da estratégia e agora mira o consumidor da classe C com força total. A decisão chega num momento em que o varejo nacional coleciona pedidos de recuperação judicial. A pergunta que fica: a “tropicalização” da marca francesa vai funcionar?
A guinada que pegou o mercado de surpresa
Julio Alves, diretor de marketing da operação brasileira, confirmou a mudança de foco durante a premiação Folha Top of Mind na terça-feira (27). A rede vai ampliar o sortimento de itens de entrada, reforçar a comunicação de preço baixo e acelerar o crescimento da marca própria. Tudo para aumentar giro e volume nas lojas.
A campanha “Sempre Rende Mais”, estrelada pelo sambista Martinho da Vila, é a face visível dessa transformação. Segundo Alves, a ideia é “colocar um sambinha falando de economia” para mostrar que o Carrefour rende economia no bolso do cliente.
O que a matriz francesa achou do “sambinha”
A reação dos executivos de Paris chamou atenção. Ao verem a peça publicitária, disseram que ela “representa a imagem do Brasil para eles”. O comentário revela o quanto a operação local ganhou autonomia para adaptar a marca à realidade nacional — algo raro em multinacionais do setor.
Essa liberdade tática explica por que o Carrefour consegue mover-se rápido enquanto concorrentes travam decisões em comitês globais.
Novo consumidor, nova prateleira
Além do público sensível a preço, a rede identificou um nicho em expansão: usuários de medicamentos para emagrecimento, chamados internamente de “clientes das canetas”. Para eles, o Carrefour está reforçando o sortimento de proteínas e produtos com apelo de saudabilidade.
A leitura é direta: quem usa essas medicações passa a comer menos, mas exige mais qualidade nutricional no que consome. Quem atender essa demanda ganha fidelidade.
O que os números do Top of Mind 2026 mostram
Pela terceira vez consecutiva, Carrefour, Assaí e Atacadão dividiram o pódio da categoria Supermercado. O detalhe relevante: as três marcas empataram com 4% de lembrança espontânea cada. O empate técnico sinaliza que a liderança isolada desapareceu — a briga agora é por décimos de ponto na mente do consumidor.
- Empate triplo: Carrefour, Assaí e Atacadão com 4% cada
- Terceira edição seguida: mesmo pódio desde 2024
- Lembrança baixa: 4% mostra fragmentação do setor
O que observar daqui para frente
A execução da “tropicalização” será testada nas próximas duas trimestrais. Se o mix de entrada ganhar espaço nas gôndolas sem canibalizar a marca própria, o modelo prova-se viável. Caso contrário, a rede corre o risco de ficar no meio do caminho: nem discounter puro, nem hipermercado completo. O movimento dos concorrentes — especialmente Assaí e Atacadão — para defender suas bases de clientes ditará o ritmo da disputa.
