O número de trabalhadores afastados por transtorno do jogo patológico multiplicou por cinco entre 2023 e 2025, saltando de 67 para 361 concessões de auxílio-doença pelo INSS. A escalada expõe uma crise silenciosa dentro das empresas brasileiras, cuja conta final ainda está sendo calculada.
O pico ocorreu antes da proibição das apostas online, decretada em setembro de 2026. A dúvida que fica: a medida chega a tempo de reverter o prejuízo na produtividade e na saúde mental das equipes?
Os números que expõem a gravidade do problema
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego, baseados em benefícios por incapacidade temporária com CID ligado à ludopatia, desenham uma curva ascendente agressiva. Em 2024, o total já havia mais que dobrado, chegando a 157 afastamentos. No ano seguinte, o volume disparou para 361 casos — um aumento de 438% em apenas dois exercícios.
Cada afastamento representa, em média, semanas de ausência, substituições emergenciais e queda na entrega de projetos. Para o RH e a gestão financeira, o impacto direto na folha e nos índices de absenteísmo deixa de ser estatística e vira dor de cabeça operacional.
Perfil da força de trabalho mais vulnerável
A radiografia dos afastados quebra estereótipos. A maioria esmagadora — 71% — é composta por homens na faixa dos 30 aos 39 anos, justamente o grupo etário em plena ascensão profissional e com maior poder de decisão nas organizações.
- Gênero: 71% homens / 29% mulheres
- Faixa etária predominante: 30 a 39 anos (44,1% do total)
- Gatilho principal: Apostas esportivas online (“bets”)
Esses profissionais costumam ocupar cargos de média gerência, áreas técnicas ou comerciais, onde a pressão por resultados e o acesso a smartphones corporativos facilitam o ciclo da aposta compulsiva durante o expediente.
A proibição freou a curva ou apenas mascarou o sintoma?
Em 25 de setembro de 2026, o governo federal vetou a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas online no país. A medida é drástica, mas os dados de afastamento mais recentes disponíveis referem-se a 2025 — ou seja, retratam o cenário antes da vigência da lei.
Especialistas em saúde ocupacional alertam: a ludopatia não desaparece com a canetada. O vício migra para plataformas ilegais, jogos de azar físicos ou outras formas de compulsão. O tempo de latência entre o início do transtorno e o afastamento médico costuma ser longo, o que sugere que os reflexos de 2025 e 2026 ainda vão engordar as estatísticas do INSS nos próximos anos.
Custo Brasil: muito além da previdência
A conta não para no benefício previdenciário. O Judiciário já sente o tranco: ações judiciais relacionadas a bets aumentaram mais de 1.000% no Rio de Janeiro. Paralelamente, a União acionou a Justiça para cobrar do setor os gastos do SUS com tratamento de dependentes.
No varejo, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) registrou alta no consumo de alimentos após o bloqueio das plataformas, indicando que a renda antes drenada pelo jogo voltou a circular na economia real. Para o empresário, o sinal é claro: o dinheiro perdido nas bets saía do bolso do consumidor — e, muitas vezes, do caixa da própria empresa via endividamento do funcionário.
Sinais de alerta que o RH não pode ignorar
Identificar o problema cedo evita o afastamento e preserva o capital humano. Gestores devem ficar atentos a:
- Quedas bruscas de produtividade sem causa aparente
- Pedidos frequentes de adiantamento salarial ou empréstimos consignados
- Alterações de humor, isolamento ou defensividade excessiva
- Uso constante do celular para fins não profissionais durante o horário de trabalho
O que observar daqui para frente
O cenário exige monitoramento contínuo de três frentes. Primeira: a eficácia da fiscalização contra sites ilegais que surgem para burlar o bloqueio. Segunda: a capacidade da rede de saúde mental (CAPS, convênios corporativos) de absorver a demanda reprimida por tratamento. Terceira: a adaptação das políticas internas de compliance e bem-estar para incluir triagem de ludopatia nos programas de qualidade de vida.
Empresas que tratarem o tema como questão de saúde pública e gestão de risco — e não apenas como “problema pessoal do funcionário” — terão vantagem competitiva na retenção de talentos e na mitigação de passivos trabalhistas nos próximos ciclos.
