Economia

CBS a 11,3%: o choque que pegou empresas de surpresa e o que vem agora

Sessão do TCU aprovando alíquota da CBS em 11,3% para reforma tributária
Ministros do TCU definem alíquota de referência da CBS em 11,3%, impactando planejamento tributário das empresas para 2027.

O Tribunal de Contas da União aprovou, por unanimidade, a alíquota de referência da CBS em 11,3% — um número 22% acima da soma atual de PIS e Cofins. A definição, divulgada a pouco mais de dois meses do início da vigência, obriga empresas de todos os portes a refazerem contas que já estavam fechadas para 2027.

Durante a tramitação da reforma, a Fazenda projetava algo entre 8,53% e 9,05%. Depois, com as exceções aprovadas no Congresso, a estimativa subiu para 9,21%. O salto para 11,3% expõe o tamanho da conta que ficou para o contribuinte.

Por que a alíquota subiu tanto

Especialistas apontam três motores principais para o número final:

  • Meta de neutralidade arrecadatória baseada na média de 2012 a 2021 (4,99% do PIB), superior à arrecadação recente.
  • Benefícios fiscais mantidos — cesta básica com alíquota zero, regimes especiais para saúde, educação, Simples Nacional e Zona Franca de Manaus.
  • Expectativa de redução do hiato de conformidade: o TCU estima queda de 29,3% na diferença entre o que deveria ser recolhido de PIS/Cofins e o que efetivamente entra nos cofres.

Richard Dotoli, do Siqueira Castro, resume: “Recompor esse patamar significa arrecadar, em relação ao PIB, mais do que se arrecada hoje.”

O impacto real depende do regime da empresa

Milton Schivitaro, do Finocchio & Ustra, faz a conta “por fora”: a CBS de 11,3% equivale a cerca de 10,2% de carga efetiva — pouco acima dos 9,25% do PIS/Cofins não cumulativo (que por fora dá 10,2%).

Já para quem está no regime cumulativo (3,65%, ou ~3,8% por fora), o aumento é brutal. Setores intensivos em mão de obra e com poucos créditos a compensar — serviços, construção, tecnologia — tendem a sentir o peso todo no caixa.

O relógio está correndo

A CBS entra em vigor em 2027. Faltam definir ainda: alíquotas do Imposto Seletivo, lista de produtos da Zona Franca de Manaus e percentuais de créditos presumidos. Luis Wulff, CEO do Tax Group, alerta: “Muitas empresas já encerraram planejamento para 2027. Todos esses instrumentos precisarão passar por reprecificação.”

Tércio Chiavassa, do Pinheiro Neto, conecta o número às metas fiscais: resultado primário de 0,5% do PIB em 2027 e 1% em 2028. A busca por arrecadação extra explica parte da pressão sobre a alíquota.

Não é definitivo — mas já exige ação

O TCU encaminhará a proposta ao Senado, que fixará o percentual final. Mas esperar a votação é arriscado. Sthefani Rocha, do Reis Rocha, explica que a neutralidade arrecadatória do sistema não garante neutralidade para cada empresa ou setor.

Fernanda Rizzo, do Vieira Rezende, coloca em perspectiva: “Desde o início dos debates, as estimativas indicavam que a CBS precisaria ser fixada em patamar próximo à carga efetiva dos contribuintes do regime não cumulativo.” O número, para ela, não surpreende — mas a velocidade da divulgação, sim.

O que observar daqui para frente

  • Votação no Senado: pode alterar o percentual, mas o tempo é curto.
  • Definição do IBS (estadual/municipal): se ficar em 18,7% como estimado, o IVA total chega a 30% — o maior do mundo.
  • Regulamentação de créditos presumidos: determinará quem consegue mitigar o impacto.
  • Reação de setores específicos: pressão por regimes diferenciados pode reabrir negociações.

Para o empresário, a lição é clara: a alíquota de referência já está na mesa. Quem não reconstruir sua base de custos líquida de créditos — e apenas substituir alíquotas antigas pela nova — repassará a diferença integral ao consumidor. O planejamento tributário de 2027 começou agora.