Economia

BRB ignorou alerta de 90% de falhas e seguiu comprando carteiras do Master

Sede do BRB em Brasília com documentos sobre Operação Compliance Zero e aquisições do Banco Master
BRB manteve compras de carteiras do Master mesmo após alerta interno de 90% de falhas graves

A diretoria do Banco de Brasília (BRB) soube em agosto de 2024 que nove em cada dez contratos vindos do Banco Master apresentavam defeitos graves. Mesmo assim, as aquisições continuaram. O detalhe está no relatório parcial da Polícia Federal que embasa a Operação Compliance Zero e expõe como a pressão por volume falou mais alto que os filtros de risco.

Um gerente interno registrou, por escrito, que cerca de 90% da carteira recebida não atendia aos critérios do banco. As falhas iam de inconsistências cadastrais a indícios de irregularidade na origem dos créditos. Governança e compliance também foram apontados como deficientes.

O alerta que não freou a máquina

O documento da PF revela que, diante da rejeição reiterada dos ativos, a orientação não foi parar. Pelo contrário: exigiu-se que o Master encontrasse novos créditos para manter o fluxo. Em algumas análises, apenas uma fatia mínima dos contratos passava nos testes. Ainda assim, critérios de avaliação teriam sido alterados depois, ampliando o que era aceitável.

Essa dinâmica ajudou a engordar a exposição do BRB ao Master. O banco brasiliense — controlado pelo governo do Distrito Federal — chegou a injetar R$ 16,7 bilhões na instituição de Daniel Vorcaro. A compra integral foi barrada pelo Banco Central. Meses depois, descobriu-se que parte relevante das carteiras adquiridas era fraudulenta ou sem lastro real.

Quem está na mira da investigação

A PF indiciou 15 pessoas no relatório mais recente. A lista mistura ex-gestores das duas instituições e sócios de uma consultoria apontada como empresa de fachada:

  • Seis ex-sócios ou ex-dirigentes do Banco Master, incluindo Vorcaro e Augusto Lima;
  • Dois sócios da Tirreno, firma de consultoria investigada;
  • Sete ex-diretores do BRB, entre eles o ex-presidente Paulo Henrique Costa e o ex-diretor de Finanças Dario Oswaldo Garcia Junior.

Todos são alvo da Operação Compliance Zero, que apura esquemas de fraude, lavagem de dinheiro e gestão temerária. Os três nomes centrais — Vorcaro, Costa e Lima — estão presos.

O custo da insistência

O relatório sugere que a pressão por fechar negócios veio da presidência do BRB. Diretores de riscos, compliance, tecnologia e atacado foram indiciados, o que indica que a cadeia de comando estava ciente dos problemas. Ainda assim, novas rodadas de compra foram autorizadas.

O prejuízo final para o banco público do DF ainda está sendo dimensionado, mas já se fala em perdas bilionárias. O Banco Central acompanha o caso de perto e pode impor sanções adicionais.

O que observar nos próximos meses

A denúncia formal do Ministério Público Federal deve detalhar como as regras internas foram flexibilizadas e quem se beneficiou diretamente. Para investidores e credores do BRB, o foco agora está na capacidade de recuperação de ativos e na eventual necessidade de aporte do acionista majoritário — o governo do DF. A próxima fase da investigação pode atingir também auditores e conselheiros que chancelaram as operações.