Economia

O segredo do Orçamento UK: como evitar o colapso econômico

Ministro John Healey apresenta Orçamento UK em meio a desafios econômicos e estagnação desde 2008
O Chanceler John Healey enfrenta o desafio de reverter décadas de estagnação econômica britânica com seu primeiro Orçamento.

O ministro das Finanças John Healey apresenta seu primeiro Orçamento sob uma pressão única: provar que o Reino Unido nas mãos de Andy Burnham é governado por adultos responsáveis. Mas a verdadeira aposta não é apenas credibilidade — é sobreviver à estagnação que dura desde 2008.

Se o PIB per capita tivesse mantido o ritmo pré-crise, cada britânico seria hoje um terço mais rico. Essa conta não fecha, e o relógio demográfico corre contra.

As duas amarras que travam o país

A primeira é interna: a população envelhece rápido e a hostilidade à imigração fecha a válvula de escape. Resultado? Mais pressão sobre saúde e pensões, menos trabalhadores por aposentado e crescimento per capita travado. Tej Parikh resume: sem mudança de rota, déficits e dívida explodem no longo prazo.

A segunda vem de fora. A geopolítica virou terreno minado: potências erráticas usam dependências alheias como arma, e a vizinhança europeia é mais ameaçadora que há duas décadas. A resposta, segundo Jenny Bates, é “construir uma abertura segura” — autarquia é suicídio, mas ingenuidade também.

Crescimento não é opcional, é pré-condição

Sem expansão econômica, a política vira guerra de soma zero: classes, gerações e etnias disputando migalhas. O Reino Unido já vive isso. Kingman e Vadera, nos “Growth Papers” do King’s College London, mostram o buraco: o PIB real per capita nunca recuperou a tendência pré-2008.

Envelhecimento + estagnação = conta fiscal impagável. A equação é simples, a solução não.

Duas alavancas baratas e poderosas

O governo Burnham promete descentralização. Kingman e Vadera vão além: o foco deve ser nas cidades, incluindo Londres. Hoje, o centro arrecada parcela extraordinária dos impostos. Se governos locais retessem e gastassem mais perto do chão, o dinamismo empresarial dispararia — a China prova o modelo.

A outra alavanca é desregulamentação. O Partido Trabalhista, porém, aperta os nós em trabalho e moradia. Ainda assim, a construção civil oferece espaço para cortar a burocracia paralisante. O relatório “Domando o Leviatã” aponta caminhos.

A insanidade do Lower Thames Crossing

O relatório Building More for Less (Britain Remade) expõe o absurdo: infraestrutura no UK custa 1,2 a 2 vezes mais que em pares comparáveis. O caso símbolo:

  • 359.070 páginas no pedido de planejamento
  • 150 funcionários dedicados apenas ao processo
  • £ 300 milhões (R$ 2,13 bi) só para elaborar a papelada
  • Estudo de impacto ambiental com mais de 12 mil páginas

O projeto completo — 22 km de estrada com túnel de 4,18 km — custa entre £ 9 bi e £ 10,6 bi (R$ 63,9 a 75,3 bi). Uma loucura que precisa acabar ontem.

O que Healey tem na mesa

Três oportunidades concretas: reforma tributária, descentralização radical e desregulamentação cirúrgica. Todas baratas, todas ignoradas há décadas. O Orçamento deve sinalizar prudência — tédio, como diz Wolf, é melhor que emoção arriscada.

O que observar daqui pra frente

Fique de olho em três sinais: se o Tesouro devolve poder fiscal às metrópoles, se o licenciamento de grandes obras cai para meses (não décadas) e se as regras de zoneamento e trabalho flexibilizam sem destruir direitos. Se nada disso aparecer no papel, a aposta na “abertura segura” vira ficção — e a conta vem em juros mais altos, investimento fugindo e um país mais velho, mais pobre e mais rachado a cada ano.