Justiça

Bet de amigo de Flávio: R$ 210 mil em 18 meses após pagar R$ 5 mi

Logotipo da BestBet, site de apostas investigado pela PF ligado a Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro, com prejuízo de R$ 5 mi
BestBet faturou apenas R$ 210 mil em 18 meses após pagar R$ 5 milhões por licença no Rio, sob investigação da PF por sócio oculto.

A BestBet, site de apostas ligado ao advogado Willer Tomaz — amigo do senador Flávio Bolsonaro —, faturou apenas R$ 210 mil nos primeiros 18 meses de operação, uma fração dos R$ 2,1 milhões projetados e bem abaixo dos R$ 5 milhões pagos pela licença no Rio. O que explica esse descompasso e por que a Polícia Federal investiga se há sócio oculto na operação?

Documentos enviados à Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro) mostram que a receita entre dezembro de 2023 e junho de 2025 ficou 90% aquém da meta. Para efeito de comparação, a Betano, maior do setor, faturou R$ 8 bilhões só em 2025. A licença carioca custou R$ 5 milhões à vista mais 5% variável sobre a receita; para recuperar o investimento, a empresa precisaria gerar mais R$ 4,8 milhões até 2028.

O freio regulatório que mudou o jogo

A medida provisória 1.394, de setembro de 2026, proibiu apostas online em todo o país. A BestBet bloqueou cadastros, suspendeu marketing e limitou o acesso a saques. Antes disso, uma liminar do ministro André Mendonça, do STF, já havia restringido a atuação ao território fluminense, forçando a Rede Loto — controladora da marca — a rever projeções de forma conservadora.

O plano original baseava-se no mercado não regulado de 2023: R$ 12 bilhões nacionais, dos quais 9,9% (R$ 1,18 bi) viriam do Rio. A empresa mirava 1% desse bolo (R$ 213,8 mi), mas conquistou apenas 0,1% até junho de 2025.

Cronologia suspeita na largada

  • 17/02/2023: Rede Loto registrada na Junta Comercial de SP, dois meses antes do edital da Loterj.
  • 27/04/2023: Entrega de 132 páginas de documentos às 9h09 — mesmo dia da publicação do edital em jornal de grande circulação.
  • 25/05/2023: Autorização da BestBet publicada no Diário Oficial (30/05), assinada por Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj.

A Loterj não exigia identificação dos beneficiários finais nos moldes federais, o que manteve os acionistas da Cathedral — holding que controla a Rede Loto — fora dos registros oficiais. Cançado foi indicado ao cargo por Flávio Bolsonaro, segundo fontes da autarquia. Ele e o ex-governador Cláudio Castro também são alvos da investigação.

Conexões que a PF quer esclarecer

A revista piauí revelou que a Polícia Federal pediu ao STF a abertura de inquérito para apurar se Flávio Bolsonaro é sócio oculto da BestBet. A Cathedral, única sócia da Rede Loto, detém 6,25% de uma aeronave do programa NetJets adquirida em 2025; o senador fez voos entre Portugal e França nesse equipamento.

Em nota, Tomaz negou irregularidades e afirmou que as marcas da Rede Loto nunca iniciaram operações de apostas. A campanha de Flávio classificou a relação como “exclusivamente de amizade” e chamou as suspeitas de “mera ilação”. O advogado também alega que a PF investiga vazamentos de informações sigilosas.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem atenção: o desfecho do pedido de inquérito no STF, a posição da Loterj sobre a licença já concedida e eventuais desdobramentos sobre a indicação política na autarquia. Se confirmada a hipótese de sócio oculto, o caso pode respingar na campanha presidencial de 2026 e na credibilidade do modelo de licenciamento estadual de bets. Investidores e operadores do setor devem monitorar também a regulamentação federal, que deve sobrepor-se às normas estaduais nos próximos meses.