O temido El Niño “bomba” não explodiu como previsto: o Sul recebe chuvas acima da média que apenas atrasam o plantio, enquanto o Centro-Oeste acelera a semeadura. Mas o alívio climático esconde armadilhas perigosas para feijão e arroz. O que os números revelam sobre a safra 2024/25?
Soja e milho: o motor do Centro-Oeste não para
Em Mato Grosso, maior produtor nacional, o plantio da soja ganhou fôlego nos últimos dias e caminha para fechar a janela ideal. No Paraná, a umidade excessiva freou as máquinas na semana passada, mas o ritmo foi retomado. Mato Grosso do Sul e Goiás também registram evolução sólida.
O milho de primeira safra entra na reta final com área ampliada e otimismo do produtor. Dados de consultorias indicam que a expansão dessa cultura compensou, em parte, a cautela inicial com o clima.
O alerta vermelho no feijão: frio fora de hora
Enquanto soja e milho avançam, o feijão enfrenta um inimigo silencioso: temperaturas abaixo de 15°C no Paraná e no sudoeste paulista. Esse frio anômalo provoca abortamento floral, cenário que projeta produção bem abaixo do potencial.
Segundo Vlamir Brandalizze, analista de grãos, a combinação de frio e dias nublados cria um “duplo golpe” — a planta não fotossintetiza e perde a flor. A consequência direta é uma oferta menor no primeiro semestre de 2025.
Arroz: entre o atraso no campo e a montanha-russa dos preços
O cereal entrou na entressafra com estoques apertados após colheita menor em 2024. No Rio Grande do Sul, apenas 50% da área projetada foi semeada — a média histórica para o período é 70%. A cultura exige “água no pé e sol na cabeça”; o excesso de nuvens e chuva constante trava o desenvolvimento.
- Área 2026/27 projetada: 1,55 milhão de hectares
- Tocantins: expansão de 95 mil para 110 mil hectares
- Rio Grande do Sul: recuo para 850 mil hectares
- Produção nacional estimada: 10,5 milhões de toneladas
Os preços reagiram forte no segundo semestre: a saca saltou de R$ 50 na colheita para R$ 82 no Sul. Nas últimas semanas, porém, cederam para R$ 78–79 pressionadas por exportações aquecidas, menor ingresso do Mercosul e varejo queimando estoques comprados na baixa.
Demanda estagnada: o consumidor sumiu da equação
Indústrias relatam que a procura por arroz e feijão não cresce, apesar de serem itens básicos. O endividamento das famílias e a migração de renda para apostas esportivas reduzem o poder de compra. Esse vazio de demanda impede repasses de custo e trava a formação de estoques reguladores.
O que observar daqui para a frente
Três variáveis ditarão os próximos meses: (1) se o El Niño trará enchentes grandes no RS — lagoas cheias hoje garantem irrigação, mas transbordamentos destroem lavouras; (2) a capacidade do Tocantins de entregar a expansão prometida sem percalços logísticos; (3) a retomada do consumo interno, única força capaz de sustentar preços acima de R$ 80 no médio prazo. O mercado externo segue favorável: 2 milhões de toneladas em casca devem sair até novembro, com Ásia compradora e Brasil ganhando espaço na América Central e África.
