A Meta elevou o teto de investimentos para 2026 a US$ 145 bilhões e anunciou uma nova classe de ações sem direito a voto, em um movimento duplo que sinaliza confiança na estratégia de inteligência artificial e blindagem do controle de Mark Zuckerberg. As ações subiram mais de 3% no after-market.
O anúncio veio junto ao balanço do terceiro trimestre, que mostrou receita de US$ 64,6 bilhões — 26% acima do ano anterior — e lucro por ação de US$ 3,83, superando as projeções. Mas o foco do mercado está no que vem depois.
O tamanho da aposta: números que impressionam
A faixa de capex para 2026 ficou entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões, acima do piso anterior de US$ 130 bilhões. Para colocar em perspectiva: o ponto médio de US$ 140 bilhões equivale a cerca de R$ 703 bilhões, mais que o PIB de vários países emergentes.
Até setembro, a empresa havia gasto apenas US$ 86 bilhões. Ou seja, o ritmo precisa acelerar drasticamente no quarto trimestre e no próximo ano para cumprir a meta.
- Capex 2026 projetado: US$ 135–145 bi
- Gasto nos 9 primeiros meses de 2025: US$ 86 bi
- Receita Q3: US$ 64,6 bi (+26% a/a)
- Lucro por ação Q3: US$ 3,83 (vs. US$ 3,57 esperado)
- Guidance Q4: US$ 73–76 bi
Nova classe de ações: blindagem e moeda de troca
A Meta distribuirá aos atuais acionistas uma nova ação sem direito a voto na proporção de duas para uma — na prática, um desdobramento. A negociação deve começar em janeiro.
Os papéis servirão a três propósitos declarados: captação de recursos, remuneração de funcionários e eventuais aquisições. Sem voto, não diluem o controle de Zuckerberg, que mantém cerca de 61% do poder de voto através das ações Classe B.
Mas o efeito colateral é relevante: aumenta a liquidez e cria uma “moeda” para compras futuras sem abrir mão do comando.
Muse: o agente que virou o jogo
O divisor de águas chama-se Muse. Lançado em setembro, o agente de IA atingiu 10 milhões de usuários nos EUA e Canadá em seis semanas e liderou rankings de apps móveis. Automatiza compras, agendamentos, reservas de ingressos — tarefas do dia a dia.
Zuckerberg declarou que o produto “demonstrou claramente sua adequação ao mercado” e a empresa entra agora em fase de “expansão em escala”. O custo computacional, porém, é enorme — razão pela qual o lançamento global ainda não ocorreu.
Como a Meta pretende monetizar
A estratégia de receita do Muse combina múltiplas frentes:
- Gratuidade para a maioria dos usuários
- Taxas de transação pagas por empresas
- Assinaturas para usuários intensivos
- Acesso pago a modelos mais avançados
- Ferramentas corporativas para empresas que usarem o Muse no trabalho
“Se a eficiência computacional continuar melhorando, o Muse será altamente lucrativo ao longo de vários anos”, afirmou Zuckerberg. A CFO Susan Li reconheceu que os retornos levarão mais tempo que no negócio principal, mas citou “amplitude das oportunidades de monetização e ganhos internos de eficiência”.
O que fica no radar: Reality Labs e nuvem corporativa
Enquanto despeja dinheiro em IA, a Meta corta custos em outras frentes. O quadro de funcionários caiu 15% em um ano. A Reality Labs, divisão de hardware e metaverso, deve fechar 2025 com prejuízo de US$ 19 bilhões, recuando para US$ 15 bilhões em 2027 — com recursos redirecionados “principalmente para IA”.
Em paralelo, CJ Desai assumirá a nova plataforma empresarial, negócio de nuvem para vender acesso a modelos e serviços de IA da Meta — concorrendo diretamente com Azure, AWS e Google Cloud.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a aposta se sustenta: a curva de eficiência computacional do Muse (que dita a rentabilidade), a adoção corporativa da nova plataforma de nuvem e a capacidade da Meta de manter o crescimento de receita publicitária — ainda a vaca leiteira — enquanto o capex consome fluxo de caixa livre. O próximo trimestre dirá se o ritmo de gasto de US$ 86 bi em nove meses acelera para atingir os US$ 140 bi anuais. Quem acompanha a tese deve monitorar também a liquidez das novas ações Classe C a partir de janeiro.
