Meio Ambiente

35 toneladas de santinhos: o destino oculto (e lucrativo) do lixo eleitoral

Pilhas de santinhos e material eleitoral sendo reciclados em cooperativa após eleições municipais São Paulo
35 toneladas de material eleitoral são destinadas à reciclagem após eleições municipais em São Paulo.

Cerca de 35 toneladas de papel, plástico e metal saíram das ruas direto para a cadeia de reciclagem após as últimas eleições municipais. O volume, divulgado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), equivale ao peso de 25 carros populares e esconde uma operação logística que movimenta renda para cooperativas e obrigações legais para candidatos.

Mas nem todo material vira matéria-prima. Tecidos, adesivos e papéis sujos ficam de fora. A pergunta que fica é: para onde vai o resto e quem lucra com essa triagem?

O mapa do descarte: 83 endereços e uma regra clara

O TRE-SP mapeou 83 pontos de recebimento nas regiões de Sorocaba e Jundiaí. A lista inclui cooperativas, empresas privadas e ecopontos municipais. A regra é simples: a destinação deve ser ambientalmente correta, mas o partido ou candidato escolhe onde entregar.

O tribunal recebe os relatórios de quantidade até 30 de novembro. Em 2022, o volume total chegou a 45 toneladas. A queda para 35 toneladas em 2024 sinaliza uma mudança no perfil das campanhas ou na eficiência da coleta.

O que entra na prensa e o que vai para o lixo comum

A triagem começa na separação feita pelos próprios candidatos. A lista de aceitos é extensa, mas as restrições técnicas definem o sucesso da reciclagem:

  • Aceitos: panfletos, santinhos, folders, cartazes, banners, placas metálicas, peças plásticas, cartões de visita.
  • Rejeitados: materiais em tecido (poliéster, TNT), adesivos, fitas adesivas, papéis sujos ou contaminados, lonas, cavaletes de madeira.

Itens fora da lista contaminam a carga e podem inviabilizar a venda do fardo para a indústria.

Dois pesos, duas medidas: a realidade das cooperativas

Na prática, o fluxo de materiais varia drasticamente entre os pontos de coleta. A DS Ambiental, em Sorocaba, processou sozinha cerca de cinco toneladas. O material é prensado, certificado e vendido para a indústria.

Já a Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso) não recebeu nenhuma procura de candidatos até o momento. A presidente Claire Pasqualini explica que a cooperativa aceita papel e plástico, mas não faz retirada fora da rota da coleta seletiva — o candidato precisa levar.

Em Jundiaí, a Junpapel recebeu apenas três caixas. A representante Silvana Marcondes adianta: para grandes volumes, eles buscam; para pouco, o gerador traz.

Onde entregar nas duas regiões (resumo prático)

Sorocaba – Principais pontos:

  • DS Ambiental: Rua Francisco Pinho, 159 – Vila Barcelona.
  • Coreso: Rua Encarnação Rando Castellucci, 70 – Vila Colorau | (15) 3227-6608.
  • COPERESO: Rua Leopoldo Machado, 270 – Centro | (15) 98800-2658.
  • ECOPEL: Rua Adão de Brito, 549 – Vila Leopoldina | (15) 3033-2326.
  • Ecoponto Vila Helena: Rua Roque Sampaio, 100 – Vila Helena.

Jundiaí – Principais pontos:

  • Junpapel: Av. Prof. Pedro Clarismundo Fornari, 1700 – Engordadouro.
  • Geresol: Av. Yamashita Yukio, 1268 – Distrito Industrial.
  • Guaraú Comércio: Rua Dr. Cândido Mojola, 40 – Jardim Búfalo | (11) 4582-8876.
  • Ecopontos municipais: Jardim do Lago, Cidade Nova, Morada das Vinhas, Jardim Tarumã, Residencial Jundiaí, Vila Nambi, Jardim Tamoio.

O fio condutor: renda, logística e fiscalização

Alvo de fiscalização, o descarte irregular pode render multas e dor de cabeça jurídica. Por outro lado, a reciclagem formal gera renda direta para catadores e cooperativas — um elo da economia circular que costuma passar despercebido no calendário eleitoral.

O volume de 2024 (35 t) ficou abaixo de 2022 (45 t), mas a estrutura de 83 pontos mostra capacidade ociosa. Muitos locais, como a Coreso, operaram com zero entrada de campanha.

O que observar nas próximas semanas

O prazo de 30 de novembro para prestação de contas do descarte é o próximo marco. Se a adesão dos partidos aos pontos listados continuar baixa, o TRE-SP pode endurecer a cobrança por certificados de destinação. Para gestores de resíduos e cooperativas, fica a lição: a logística reversa eleitoral existe, mas a ponte entre o gerador e o reciclador ainda travada pela burocracia e pelo desconhecimento dos endereços.