Recife viveu neste sábado (24) um ensaio geral da polarização que deve ditar o ritmo da economia nos próximos anos. Enquanto a região central era tomada por três manifestações simultâneas pela reeleição do presidente Lula (PT), uma carreata cruzava a capital de ponta a ponta defendendo a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto. O cenário, a 24 horas do segundo turno de 2026, expõe um eleitorado rachado ao meio — e lança dúvidas imediatas sobre a governabilidade pós-urna.
Dois palanques, uma mesma avenida: a geografia do voto
Pela manhã, a concentração bolsonarista partiu do Parque da Macaxeira, na Zona Norte, e seguiu até Boa Viagem, na Zona Sul. Bandeiras do Brasil e material de campanha do senador carioca dominaram o percurso, num trajeto desenhado para cortar bairros de classe média alta e áreas de comércio intenso.
À tarde, o centro histórico virou palco da resposta petista. O ato “Bota pra virar” saiu da Praça do Derby em caminhada até o Bairro do Recife, onde se fundiu ao movimento “Cultura com Lula”, convocado por artistas e trabalhadores do setor cultural. A marcha conjunta terminou no Marco Zero, ponto simbólico e turístico da capital pernambucana.
Por que o empresariado local não pode ignorar essa foto
Pernambuco responde por cerca de 2,7% do PIB nacional e abriga o complexo portuário de Suape, hub logístico estratégico para o Nordeste. A divisão visível nas ruas reflete um racha que chega às cadeias produtivas: fornecedores da indústria naval, do setor sucroenergético e de tecnologia da informação reportam, nos bastidores, paralisia de decisões de investimento até a definição do vitorioso.
Um levantamento informal da Fecomércio-PE, divulgado na véspera, aponta que 62% dos lojistas do Centro esperam queda no fluxo de consumidores nos dias seguintes à eleição, independentemente do resultado, devido à incerteza fiscal.
Os três vetores de risco para o curto prazo
- Câmbio e juros: O real tende a testar novos patamares na abertura de segunda-feira; o mercado precifica probabilidade acima de 55% de manutenção da Selic em 13,75% até o primeiro trimestre de 2027.
- Orçamento secreto e emendas: A composição do Congresso, que sai das urnas hoje, define o poder de barganha de cada campo sobre verbas de infraestrutura — vitais para obras em andamento no Porto de Suape e na Transnordestina.
- Clima social: Sindicatos de estivadores e caminhoneiros já sinalizam possibilidade de paralisações pontuais caso o resultado seja contestado judicialmente.
Setor cultural: o termômetro esquecido
A adesão de artistas ao ato “Cultura com Lula” não é apenas simbólica. O setor criativo responde por 3,1% do PIB pernambucano e emprega 140 mil pessoas, segundo dados do IBGE de 2023. A Lei Rouanet e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) concentram 78% do financiamento federal à cultura no estado. Qualquer mudança nas regras de acesso a esses recursos — promessa de campanha dos dois lados — repercute direto na cadeia de eventos, turismo de negócios e economia noturna do Recife Antigo.
O que observar nas próximas 72 horas
O fechamento das urnas às 17h de domingo (25) inicia a contagem regressiva para três marcos práticos: a divulgação do resultado oficial pelo TSE, a reação do dólar futuro na abertura da B3 na segunda-feira e a primeira manifestação do Banco Central via Comunicado do Copom, prevista para terça-feira. Gestores de tesouraria de médias e grandes empresas pernambucanas já montaram comitês de crise para reavaliar hedge cambial e cronogramas de captação até quarta-feira.
Enquanto o país espera, o Recife real — o dos contêineres em Suape, dos escritórios no Bairro do Recife, dos estúdios no Porto Digital — segue operando no limite da previsibilidade. Quem souber ler os sinais das ruas deste sábado sai na frente na reorganização de carteira e de estratégia para 2027.
