Tecnologia

Por que o mundo pobre ama a IA e o Ocidente teme: o abismo que ninguém prevê…

Idoso coreano sorri segurando violino e smartphone, simbolizando adoção de IA em países emergentes
Vendedor de violinos de 70 anos em Seul representa a aceitação global da IA como ferramenta de libertação

Um vendedor de violinos de 70 anos em Seul resume em uma frase o que bilhões sentem: a inteligência artificial não assusta, ela liberta. Bae Oh-do viu a Coreia do Sul saltar da lenha e das bombas de pedal para os smartphones em uma única vida. Para ele, a IA é apenas o próximo degrau — e a pesquisa mais abrangente já feita sobre o tema confirma que a maioria do planeta pensa igual.

Mas há um detalhe inquietante: quanto mais rico o país, maior o ceticismo. Nos Estados Unidos, Canadá e França, o saldo de opiniões sobre o futuro da IA é negativo. Em nações como Nigéria e Vietnã, passa de 85% o otimismo. O que explica esse abismo?

Os números que invertem a lógica ocidental

A GlobeScan ouviu 34 países para a The Economist. O recorte é claro: fora do eixo rico do Atlântico Norte, a IA é vista como promotora de progresso, não como ameaça existencial. O levantamento da Gallup em parceria com a Microsoft, cobrindo 37 nações, replica o padrão.

Dois dados saltam aos olhos:

  • Índia: quase 20% da força de trabalho já usava IA generativa no 2º trimestre de 2026.
  • África: em vários países, 1 em cada 10 trabalhadores acessou ferramentas como o DeepSeek chinês no mesmo período.

Nos EUA, a adoção chega a 33% — mas o sentimento predominante é de desconfiança.

Menos a perder, mais a ganhar: a economia do otimismo

Payal Arora, autora de From Pessimism to Promise, resume: “O pessimismo é um privilégio de quem pode se dar ao luxo de perder a esperança”. No mundo em desenvolvimento, o emprego formal e estável — aquele que a IA ameaça substituir — é exceção, não regra.

O trabalho informal e precário domina. Perder uma vaga de escritório com benefícios é um drama de país rico. Já a chance de acessar conhecimento, tradução, código e diagnóstico médico sem depender de instituições falhas? Isso muda a vida de quem nunca teve rede de apoio.

Yuen Yuen Ang, da Johns Hopkins, vai direto ao ponto: “Os ocidentais historicamente monopolizaram o conhecimento. A IA põe isso em xeque. Será uma crise apenas para quem perde com essa transformação?”

O fator demográfico que ninguém comenta

Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan, China: todas envelhecem em velocidade recorde. A escassez de mão de obra não é projeção — é conta corrente. A IA e a robótica aparecem como única saída viável para sustentar sistemas previdenciários e cuidar de populações grisalhas.

Não é coincidência que esses países figurem entre os maiores usuários globais da tecnologia. A Microsoft coloca Cingapura no topo do ranking de adoção; 2/3 dos cingapurianos creem que a IA melhorará suas vidas.

Memória tecnológica: quem subiu a escada não teme o próximo degrau

Na geração do sr. Bae, a Coreia do Sul saiu da pobreza para a riqueza em três décadas. Índia e China viram pagamentos digitais e logística transformarem o cotidiano em anos, não décadas. Quem viveu o salto confia na tecnologia porque a viu funcionar.

No Ocidente, a experiência recente foi outra: redes sociais que polarizaram, gig economy que precarizou, gigantes de tecnologia que governos não conseguem regular. A IA chega carregando essa bagagem.

Retórica divergente: catástrofe vs. ferramenta

Chefes de laboratórios americanos alertam para “extinção humana” enquanto correm para a AGI. Executivos asiáticos raramente usam esse vocabulário. O foco está no que fazer com a tecnologia, não no que ela fará conosco.

Na China, o Estado monitora riscos — cibersegurança, disrupção econômica — mas a imprensa oficial mantém tom entusiasta. A Samsung não fala em apocalipse; fala em casos de uso.

O que observar daqui para frente

A adoção em massa no Sul Global ainda é incipiente: 9% dos quenianos em idade ativa usaram IA no 2º tri de 2026, mas 85% acreditam que mudará suas vidas para melhor. A exposição direta a centros de dados, viés algorítmico e automação real pode arrefecer o otimismo — ou consolidá-lo.

Para o tomador de decisão, o sinal é claro: os mercados que mais crescerão na próxima década são os que encaram a IA como infraestrutura, não como ameaça. A pergunta não é “se” a tecnologia vai se disseminar, mas quem vai capturar o valor dessa disseminação assimétrica.