Economia

Petrobras: Flávio nega privatização, mas mercado aposta em venda de ativos

Flávio Bolsonaro discursa ao fundo logotipo da Petrobras, simbolizando debate sobre privatização
Campanha nega privatização da Petrobras, mas mercado aposta em continuidade de desinvestimentos

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) afirma que a Petrobras não será privatizada, mas executivos do setor e investidores ouvidos reservadamente apostam na continuidade do programa de desinvestimentos iniciado no governo anterior. A contradição entre o discurso oficial e a expectativa do mercado cria uma zona de incerteza que pesa nas decisões de alocação de capital.

O plano de governo registrado no TSE não menciona a estatal. A assessoria econômica evita o tema e o coordenador de energia, Adriano Pires, não concede entrevistas há semanas. O silêncio estratégico deixa aberta a interpretação de que a venda de ativos — refinarias, gasodutos, participações minoritárias — deve prosseguir sem o rótulo de “privatização”.

O que disse o braço direito na economia

Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e principal assessor econômico da campanha, foi taxativo em vídeo recente: “Não existirão privatizações de empresas. Nenhuma dessas empresas será tocada”. A declaração citou nominalmente Banco do Brasil, Caixa e Petrobras. O tom categórico busca acalmar a base eleitoral e os sindicatos.

Porém, a definição de “privatização” no vocabulário técnico do governo Jair Bolsonaro excluía a venda de ativos individuais. A Petrobras vendeu 4 das 8 refinarias colocadas à venda, além da BR Distribuidora (hoje Vibra) e da Liquigás. Todas transações de ativos, não de controle acionário da holding.

Capitalização nos moldes da Eletrobras?

Em agosto, Adriano Pires — cotado para comandar a Petrobras ou o MME — afirmou ao SBT News que não via “nenhum fantasma” em discutir capitalização da petroleira nos moldes da Eletrobras. O modelo reduziu a União a acionista minoritária sem poder de veto. “Isso não está no plano de governo, quem vai decidir é o Congresso”, completou.

A fala de Pires contrasta com a de Sachsida. Ambos integram o núcleo duro da campanha. A divergência não foi publicamente resolvida. Para analistas, a ambiguidade é deliberada: mantém o eleitorado fiel ao discurso nacionalista e sinaliza ao mercado que a disciplina de capital e o foco em ativos core permanecem.

Política de preços: o vazio perigoso

Não há, no programa de governo, menção à política de paridade de importação (PPI) nem a qualquer mecanismo de formação de preços dos combustíveis. A promessa genérica de “redução de impostos” não explica como a estatal absorveria a volatilidade do petróleo internacional sem corroer caixa ou investimentos.

No governo Jair Bolsonaro, a PPI foi mantida até a eclosão da guerra na Ucrânia, em 2022. Depois, a estatal segurou preços artificialmente, acumulando defasagem. Hoje, a gestão atual pratica preços abaixo da paridade, argumentando que o lucro com petróleo caro permite o amortecimento. A estratégia de Flávio para esse dilema é uma incógnita.

Refino e fertilizantes: promessas sem dono

O plano cita “estimular a modernização do refino rumo ao aproveitamento do petróleo nacional” e “favorecer a produção nacional de fertilizantes”. Em nenhum momento esclarece se a Petrobras lideraria esses movimentos ou se caberia ao setor privado. A estatal abandonou a expansão em fertilizantes no governo anterior, vendendo ativos como a Araucária Nitrogenados.

Para o agronegócio, a dependência externa de insumos é ponto sensível. A ausência de fonte de financiamento e de modelo de governança para esses projetos torna as promessas, por enquanto, retóricas. Investidores aguardam sinais concretos: leilões de áreas, parcerias público-privadas ou aporte do BNDES.

O que observar nos próximos meses

A transição de governo, caso o PL venha, deve começar pela definição de quem ocupará a presidência da Petrobras e o MME. O nome indicado — e sua velocidade na nomeação de conselheiros alinhados — ditará o ritmo dos desinvestimentos. Outro termômetro: a primeira reunião do Conselho de Administração sob nova gestão. Se a pauta trouxer aprovação de vendas de ativos já em estudo, o mercado terá a resposta que o discurso evita dar.