A Justiça Eleitoral determinou que a Meta Platforms se abstenha de interferir na distribuição de conteúdo político às vésperas do segundo turno. A ordem atende a uma queixa formal da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acusa a dona do Facebook, Instagram e WhatsApp de “repetida e sistemática” omissão na entrega de suas publicações aos eleitores. A disputa pelo Palácio do Planalto está empatada tecnicamente.
O movimento reacende o embate entre o Estado brasileiro e as grandes plataformas — desta vez, com repercussão imediata em Washington e nas Nações Unidas. O desfecho pode ditar as regras do jogo para 2026 e além.
O que a campanha de Lula denunciou
Segundo a equipe do presidente, três frentes de problema ocorreram simultaneamente nas últimas semanas:
- Interrupções no canal “Exército de Lula” no WhatsApp, que reúne mais de 10 milhões de seguidores;
- Restrições de alcance em publicações no Instagram da conta oficial;
- Recusa da Meta AI em gerar imagens relacionadas a Lula, enquanto produzia material de campanha favorável ao adversário, Flávio Bolsonaro (PL).
A Meta rebateu em nota de 16 de outubro: classificou os episódios como “problemas técnicos sem relação entre si” e afirmou ter corrigido as falhas, garantindo tratamento igualitário aos candidatos.
Por que o WhatsApp muda a gravidade do caso
Diferente de 2022, quando o confronto se deu majoritariamente no X (então Twitter), o epicentro agora é o WhatsApp. O aplicativo está instalado em mais de 90% dos smartphones brasileiros e funciona como infraestrutura de campanha: mobilização, arrecadação, discurso direto ao eleitor.
Roberta Braga, diretora do Instituto para a Democracia Digital das Américas, resume o risco: “Como os produtos da Meta são centrais para o debate eleitoral no Brasil, qualquer decisão — ou omissão — da empresa interfere no processo, intencional ou não.”
Ela pondera, porém, que a polarização extrema torna improvável que um único incidente altere o resultado final.
Pressão internacional e precedente Musk
A escalada ultrapassou fronteiras. Parlamentares americanos liderados por Bernie Sanders enviaram carta a Mark Zuckerberg manifestando “profunda preocupação” com relatos de supressão de conteúdo. A ONU também emitiu críticas.
O cenário lembra o bloqueio temporário do X no Brasil em 2024, após descumprimento de ordens judiciais de remoção de contas ligadas a desinformação. À época, Elon Musk desafiou o Supremo Tribunal Federal e perdeu. A Meta, agora, enfrenta escrutínio semelhante — mas com um ativo muito mais sensível: o WhatsApp.
Mudança de modelo de moderação e alinhamento geopolítico
Em janeiro de 2025, a Meta encerrou a verificação de fatos por terceiros nos EUA e adotou o sistema de “Notas da Comunidade”, copiado do X. A decisão coincidiu com a reaproximação de Zuckerberg a Donald Trump, que chamou o Facebook de “inimigo do povo” em 2021 e hoje o recebe na Casa Branca.
Trump não declarou apoio público a Flávio Bolsonaro, mas manteve reunião com o senador no Salão Oval. Jair Bolsonaro, pai do candidato, é aliado histórico do ex-presidente americano. Uma vitória da direita no Brasil reforçaria a influência de Washington no Hemisfério Ocidental — tese que Lula chama de “Doutrina Donroe”.
O que observar daqui para frente
O juiz eleitoral exigiu explicações técnicas de Meta e X ainda esta semana. O governo brasileiro já negou vistos a autoridades do Departamento de Estado americano por temer questionamentos ao sistema de votação eletrônica e acusou Javier Milei, da Argentina, de “interferência inaceitável” após o presidente argentino sugerir fraude.
Se Lula perder, uma autoridade do Planalto admite, sob anonimato, que a derrota não será contestada formalmente — mas a narrativa de “condições desiguais criadas pelas plataformas” será parte do discurso pós-eleição. Para investidores e estrategistas, o sinal está dado: o custo regulatório de operar no maior mercado da América Latina acaba de subir mais um degrau.
