A maioria dos empresários e investidores só pensa em sucessão quando o patrimônio já está formado — e descobre, tarde demais, que reorganizar tudo custa caro e limita as opções. O planejador patrimonial Michael Viriato usa uma analogia simples: faltam tomadas na casa porque ninguém previu quantos aparelhos seriam ligados. Com o dinheiro, o erro se repete.
O problema não é a idade ou o valor da fortuna. É a ordem das decisões. Quem compra o primeiro imóvel aos 35 anos sem imaginar como ele será transferido daqui a 20 anos pode enfrentar custos de avaliação, escritura, impostos e honorários que superam 10% do valor do bem na hora de estruturar uma holding.
O exemplo que ilustra o prejuízo real
Imagine um investidor que adquire cinco imóveis ao longo de duas décadas, totalizando R$ 8 milhões, todos no nome pessoal. Aos 55 anos, decide criar uma estrutura societária para facilitar a partilha entre herdeiros. Cada transferência exige:
- Avaliação de mercado atualizada
- Registro em cartório de imóveis
- Pagamento de ITBI (até 3% sobre o valor venal)
- Honorários advocatícios e contábeis
O que custaria uma única decisão no início — comprar já via pessoa jurídica ou definir cláusulas de doação futura — vira uma operação complexa, demorada e onerosa. Não significa que a holding era a melhor escolha aos 35 anos. Significa que a escolha deveria ter considerado o cenário de chegada.
Planejar cedo não é decidir tudo agora
Existe confusão entre “planejar” e “executar”. Planejar cedo significa fazer cada aquisição, cada contrato de casamento, cada apólice de seguro com a pergunta: se eu atingir minha meta patrimonial, como quero que isso esteja organizado? A resposta pode ser “manter no nome pessoal”. O ganho está em ter a resposta consciente, não no padrão.
Legislação muda. Famílias crescem. Saúde oscila. Um seguro de vida contratado aos 30 anos com boa saúde custa fração do que aos 50 com uma doença preexistente — ou pode se tornar impossível de contratar. O mesmo vale para regimes de bens no casamento: alterar depois da união estável exige acordo judicial, custos e tempo.
O que observar nas próximas decisões
Antes de assinar o próximo contrato de compra, abrir a próxima conta no exterior ou renovar o seguro, pergunte-se:
- Este ativo fará parte do legado que quero deixar?
- Se eu falecer amanhã, meus dependentes terão liquidez para pagar impostos e manter o padrão de vida?
- A estrutura atual permite doações parceladas sem perder controle?
Não é preciso instalar tomadas em todas as paredes. Mas as principais — imóveis, negócios, proteção familiar — merecem fiação prevista na planta. O custo de quebrar a parede depois é sempre maior.
