As maiores empresas de tecnologia do planeta estão prestes a injetar mais de R$ 5 trilhões em dívida no sistema financeiro global para bancar a expansão da inteligência artificial. O volume é tão grande que já força gestores a reprogramar emissões e eleva o custo do dinheiro para governos e empresas menores.
A Meta deve estrear no mercado europeu de títulos ainda neste outono, juntando-se a uma fila que já inclui Amazon, Alphabet e Microsoft. A corrida por capital não tem precedentes recentes e levanta uma dúvida crítica: o que acontece se o retorno da IA demorar a aparecer?
A estreia da Meta e a escala do problema
Pela primeira vez, a controladora do Facebook e Instagram recorrerá a investidores europeus para financiar seus data centers. Não é um movimento isolado. Segundo estimativas do Goldman Sachs, grupos ligados à IA já captaram US$ 500 bilhões apenas neste ano.
As cinco maiores hyperscalers — Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle — comprometeram US$ 200 bilhões em investimentos de capital (capex) e podem emitir mais de US$ 1 trilhão em dívida. Para efeito de comparação, o PIB brasileiro gira em torno de US$ 2 trilhões.
Dois mercados de crédito: o clube da IA e o resto
O choque de oferta criou uma distorção visível. Gestores da M&G e da Pimco relatam que, hoje, existem praticamente dois universos distintos: os emissores ligados à inteligência artificial e todos os demais.
- Espalhamento de risco: Rendimentos de títulos corporativos de alta qualidade subiram, aproximando-se de patamares de “high yield” (alto risco).
- Efeito exclusão: Empresas de outros setores evitam emitir nas mesmas janelas das big techs, encurtando prazos para fugir da concorrência direta.
- Concentração: A Meta, por exemplo, emite tanto pelo balanço corporativo quanto por veículos de propósito específico (SPVs) atrelados a data centers individuais, dificultando o cálculo real de exposição dos fundos.
Loren Moran, da Wellington Management, alerta que muitos gestores aumentaram limites de concentração por emissor sem perceber a exposição cruzada entre ações, títulos corporativos e dívida de projetos.
A turnê global por janelas de liquidez
Como o mercado americano de US$ 12 trilhões não absorve sozinho essa avalanche, as gigantes fizeram as malas. Em junho, a Amazon levantou US$ 10 bilhões no Canadá e a Alphabet, US$ 6 bilhões.
A busca por diversificação cambial reativou mercados adormecidos:
- Reino Unido: Alphabet captou 5,5 bilhões de libras (incluindo papel de 100 anos); Amazon, 4,25 bilhões.
- Austrália e Suíça: Emissões recordes em dólares australianos e francos suíços.
- Europa continental: O BCE já questionou publicamente se o mercado de eurobônus consegue digerir entradas tão concentradas sem engasgar.
A briga direta com o Tesouro dos EUA
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e autoridades do Fed admitem: as hyperscalers disputam capital com o mercado de US$ 31 trilhões em Treasuries. O rendimento do título de 10 anos tocou o maior nível desde 2007.
Gestoras como Fidelity International confirmam a substituição: a “história de crédito” das big techs — fluxo de caixa previsível, balanços sólidos — tornou-se mais atraente que a dívida soberana de governos com déficits crescentes. A BlackRock resume: a colisão entre endividamento público recorde e apetite privado por IA deve manter os juros elevados por mais tempo.
O risco invisível: a aposta no triplo do lucro
Todo o castelo de cartas repousa sobre uma premissa única: o fluxo de caixa operacional das hyperscalers triplicar, saltando de US$ 600 bilhões para US$ 2 trilhões, conforme projeção da Apollo Global Management.
Se a IA não entregar o retorno esperado no prazo que o mercado precificou, o contágio será rápido. Emissores de alto risco como a CoreWeave — profundamente integrados ao ecossistema — funcionam como gatilho. Um calote ou atraso em projetos específicos contaminaria o grau de investimento em efeito dominó.
O que observar daqui para frente
Três sinais ditam o ritmo nos próximos trimestres: a capacidade de absorção dos mercados europeu e canadense (que já mostram sinais de indigestão com papéis de prazo ultra-longo), a disposição dos bancos centrais em manter liquidez e, principalmente, a próxima temporada de balanços. Se as revisões de capex continuarem subindo sem correspondência de receita, a correção nos spreads de crédito deixará de ser teoria para virar prejuízo real no portfólio.
