O Tribunal Superior do Trabalho (TST) determinou o fim imediato da paralisação dos bancários da Caixa Econômica Federal, estipulando reajuste de 4,6% para salários, benefícios e plano de saúde. A decisão unânime, proferida nesta terça-feira (29), obriga o retorno às atividades até esta quarta (30) e impede o desconto dos dias parados, desde que as horas sejam repostas.
O ministro relator Maurício Godinho Delgado rejeitou a tese de greve abusiva e afastou a multa de R$ 100 mil pedida pelo banco. Mas o que isso significa, na prática, para o caixa da estatal e para a relação com o funcionalismo nos próximos dois anos?
O que muda no contracheque e no Saúde Caixa
O acordo coletivo aprovado tem validade de dois anos (2026 a 2028) e retroage a 1º de setembro. O índice composto pelo INPC mais 0,6% de aumento real equivale aos 4,6% totais. Esse mesmo percentual incide sobre as mensalidades do plano de saúde, ponto central do conflito.
As regras de custeio do Saúde Caixa permanecem inalteradas em relação ao acordo anterior:
- Contribuição mensal fixada em 3,5% sobre a remuneração;
- Teto de desconto limitado a 7% da remuneração;
- Manutenção das regras de coparticipação e mensalidade de dependentes.
Godinho destacou que a sentença busca um equilíbrio: “Não há possibilidade de atender nem o pleito inteiro da Caixa nem o pleito inteiro dos trabalhadores”.
Lucro bilionário pesou na balança
Diferente do julgamento dos Correios na semana passada, a saúde financeira da Caixa foi um argumento central. O ministro citou lucro de R$ 10 bilhões em 2025 e acumulação de R$ 120,6 bilhões entre 2018 e o primeiro semestre de 2026.
Para a defesa dos trabalhadores, esses números provam a capacidade da estatal de absorver o déficit projetado para o plano de saúde em 2026 sem repassar o custo integral ao funcionalismo. A Caixa, por sua vez, argumentou que o dissídio não deve criar “vencedores e perdedores”.
Tecnologia reduziu efetivo mínimo nas agências
Um detalhe operacional relevante: o TST fixou em 60% o percentual mínimo de trabalhadores presenciais durante a greve, abaixo dos 80% habituais no setor bancário. A justificativa é o avanço dos canais digitais e da automação, que reduzem a dependência do atendimento físico nas agências.
O ministro negou o pedido da Caixa para que o tribunal supervisionasse o cumprimento da cota, remetendo a fiscalização às Varas do Trabalho e TRTs espalhados pelo país.
O nó dos contratados pós-2018
Uma das fraturas expostas durante a audiência envolve a diferença de tratamento entre empregados admitidos antes e depois de 2018. As entidades sindicais alegam que a disparidade de direitos no plano de saúde foi um dos gatilhos para a paralisação iniciada em 10 de setembro.
O advogado José Eymard Loguércio, representante de uma das confederações, classificou a correção dessa assimetria como “questão fundamental”. A sentença normativa de dois anos também visa evitar o descasamento da data-base da Caixa em relação ao resto do sistema financeiro nacional.
O que observar daqui para frente
Com a greve encerrada por determinação judicial, o foco se desloca para a implementação prática: a reposição das horas paradas nos próximos meses e a gestão do déficit do Saúde Caixa diante do envelhecimento da base de beneficiários. O próximo ciclo de negociações, daqui a dois anos, testará se a paz selada no TST resistirá à pressão por reajustes reais mais robustos num cenário de juros ainda elevados.
