O Banco Central confirmou o que o bolso já sentia: o crédito para pessoa física ficou ainda mais caro em agosto. A taxa média saltou para 61,7% ao ano, puxando a inadimplência das famílias para 6%. Mas há um detalhe nas entrelinhas que separa quem vai sofrer de quem vai lucrar nos próximos meses.
O choque no custo do dinheiro plástico
O aumento de 1,4 ponto percentual em apenas um mês não veio do nada. O vilão tem nome e sobrenome: cartão de crédito rotativo e parcelado. Juntas, essas modalidades empurraram a taxa média das operações livres para 48,5% ao ano no consolidado (famílias + empresas).
Para o empresário que financia estoque ou capital de giro via cartão, a conta não fecha. O custo do dinheiro “fácil” subiu 2,9 pontos percentuais em 12 meses, ritmo bem acima da inflação.
Crédito cresce, mas qualidade piora
Paradoxalmente, as famílias tomaram mais emprestado. O saldo das operações livres para pessoas físicas bateu R$ 2,6 trilhões, alta de 10,5% em 12 meses. O motor? Financiamento de veículos, rotativo do cartão e consignado privado.
Esse crescimento mascara um risco: o endividamento comprometeu 49,9% da renda anual em julho. Quase metade do salário do ano já está hipotecada antes de janeiro chegar.
A divergência que ninguém comenta
Enquanto o consumidor paga 61,7%, as empresas viram a taxa média cair para 24,2% ao ano (queda de 1 ponto no mês). O BC explicou: houve redução forte no rotativo das empresas (-26,9 p.p.) e no capital de giro curto (-4,1 p.p.).
Resumo da ópera: o crédito barato ficou para o CNPJ; o caro sobrou para o CPF.
- Inadimplência total (SFN): 5% (+0,1 p.p. no mês)
- Inadimplência famílias: 6% (+0,2 p.p. no mês / +1,1 p.p. em 12m)
- Inadimplência empresas: 3,3% (estável)
- Comprometimento de renda: 28,7% (estável no mês, +1,4 p.p. no ano)
O que observar daqui para frente
O saldo total do crédito livre atingiu R$ 4,1 trilhões. O crédito ampliado (bancos + mercado + exterior) soma R$ 22 trilhões, equivalentes a 164,9% do PIB. A expansão de 11,3% em 12 meses mostra que a alavancagem da economia não parou.
O ponto de atenção imediato é o consignado privado. Ele puxou o crescimento recente, mas depende da estabilidade do emprego formal. Se o mercado de trabalho esfriar, a inadimplência de 6% pode virar piso, não teto.
Para quem gere caixa: travem exposição ao rotativo pessoa física. Para quem concede crédito: o spread está alto, mas o risco de crédito acompanhou. A janela para ajustar carteiras é agora, antes da próxima reunião do Copom.
