Líderes de direita na Europa rompem publicamente com o ex-presidente americano enquanto aliados brasileiros intensificam aproximação. A divisão expõe cálculos eleitorais distintos diante do impacto de tarifas e instabilidade geopolítica.
O racha no eixo conservador internacional
Nos últimos meses, figuras centrais da direita europeia passaram a criticar abertamente a postura do ex-presidente Donald Trump. O movimento não reflete convergência ideológica súbita, mas reação direta a pressões domésticas: eleitores sentem no bolso o efeito de tarifas comerciais e temem escaladas militares no Oriente Médio.
O britânico Nigel Farage, histórico aliado, declarou-se “chocado” com ameaças de aniquilação direcionadas ao Irã. Na Itália, Giorgia Meloni rejeitou endossar ataques ao Vaticano. Marine Le Pen e Jordan Bardella, na França, classificam a política externa americana como “errática”.
Alemanha e Portugal: pragmatismo eleitoral fala mais alto
Alice Weidel e Tino Chrupalla, da AfD alemã, rotularam a abordagem de Trump como “imperial”. Em Portugal, André Ventura — que já buscou espelhar o trumpismo — criticou o aumento nos combustíveis ligado às decisões da Casa Branca.
O padrão se repete: a proximidade com Washington tornou-se passivo tóxico em campanhas locais. Pesquisas internas indicam rejeição crescente entre eleitores de centro-direita a líderes percebidos como subservientes.
O caso brasileiro: alinhamento sem ressalvas
Enquanto pares europeus calibram distância, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mantém discurso de total alinhamento. Analistas veem estratégia de base: o eleitorado bolsonarista hardcore ainda associa Trump a força e soberania, ignorando externalidades econômicas.
O risco, segundo consultorias de risco político, é duplo: isolamento diplomático caso a política externa americana mude de rumo, e vulnerabilidade a retaliações comerciais setoriais — do agronegócio à indústria de transformação.
O que os números mostram até agora
- Tarifas sobre aço e alumínio impactaram exportadores brasileiros em 2018/2019; novas rodadas são cogitadas para 2025.
- Fluxo de investimento direto dos EUA para o Brasil caiu 12% no primeiro trimestre ante igual período de 2023 (Banco Central).
- Preço do petróleo acumula volatilidade de 18% no ano, pressionado por incertezas no Estreito de Ormuz.
Cenários para os próximos trimestres
Três variáveis ditam o ritmo desse rearranjo: o desfecho da eleição americana em novembro, a resposta da União Europeia a eventuais novas barreiras comerciais e a capacidade do governo brasileiro de diversificar parcerias — Mercosul, BRICS, Ásia — sem romper pontes em Washington.
Empresas expostas a cadeias globais já modelam cenários de “desacoplamento seletivo”: manter acesso ao mercado americano sem depender de goodwill político pessoal. A palavra-chave nos conselhos de administração é hedge geopolítico.
O que observar daqui para frente
Agenda imediata: reunião do G20 no Rio (novembro) e possíveis encontros bilaterais à margem. Sinais de distensão ou endurecimento nas declarações de Lula e de ministros-chave (Fazenda, Relações Exteriores, Agricultura) indicarão se o Brasil busca autonomia estratégica ou aprofunda aposta única. Investidores monitoram também a tramitação no Congresso de acordos comerciais paralelos — a velocidade de aprovação dirá se há vida além do eixo Washington-Brasília.
