Economia

Juro de 30 anos dos EUA bate 5,61%: maior nível desde 2002 e ninguém segura

Gráfico mostra rendimento do Treasury de 30 anos a 5,61%, maior nível desde 2002, com dívida dos EUA acima de US$ 40 trilhões
Rendimento do título de 30 anos atinge 5,61%, pico de 2002, refletindo preocupações com dívida americana e inflação.

O rendimento do Treasury de 30 anos saltou para 5,61% nesta terça-feira (29), pico de junho de 2002, e o programa de recompra do Tesouro não freou a venda. A pergunta que fica: até onde vai o prêmio de prazo com a dívida acima de US$ 40 trilhões?

O movimento não é isolado. O papel de dez anos tocou 5,28%, maior patamar desde 2007, enquanto o petróleo acima de US$ 100 por barril reacende apostas de mais quatro altas de 0,25 ponto pelo Fed nos próximos 12 meses.

O que está por trás da disparada

Três forças atuam juntas. Dados econômicos robustos tiraram do radar cortes de juros. A escalada do Brent — firme acima de US$ 100 durante setembro — injeta prêmio de inflação na curva longa. E a trajetória fiscal assusta: a dívida federal cruzou a marca de US$ 40 trilhões (cerca de R$ 209 trilhões) no mês passado, em ritmo histórico.

Arun Sai, da Pictet Asset Management, resume: “O caminho de menor resistência é uma expansão ainda maior do prêmio de prazo”. Investidores simplesmente não têm pressa para alongar duration.

Bessent tentou, mercado ignorou

Em meados de agosto, o secretário Scott Bessent ampliou o programa de recompra de títulos longos. Na época, o juro de 30 anos estava em 5,2%. O anúncio não segurou a onda vendedora: o rendimento subiu 41 pontos-base desde então.

Para Kristina Hooper, da Man Group, a alta reflete “preocupação crescente com a sustentabilidade fiscal” somada à inflação energética turbinada pelo conflito entre EUA e Irã. Ela alerta: a atratividade dos Treasuries para estrangeiros tende a cair diante da trajetória fiscal e da imprevisibilidade da política externa de Washington.

Ponta longa segue exposta

Laura Cooper, da Nuveen, é direta: “A ponta longa tem pouca proteção contra uma nova onda de turbulência”. Riscos de inflação no curto prazo seguem inclinados para cima enquanto a energia cara persistir. Ela reduziu a posição vendida, mas “ainda não está comprando na baixa”.

  • Treasury 30 anos: 5,61% (+6 bps no dia; +41 bps desde meados de agosto)
  • Treasury 10 anos: 5,28% (+4 bps; topo desde 2007)
  • Brent: ~US$ 104/barril (esteve acima de US$ 100 em setembro)
  • Dívida federal EUA: > US$ 40 trilhões (marca atingida no mês anterior)
  • Precificação Fed: +4 altas de 25 bps nos próximos 12 meses

Ativos de risco: resiliência surpreendente

Apesar do vendaval nos títulos, o S&P 500 caiu apenas 0,3% na sessão e permanece 2% abaixo da máxima de agosto. O Nasdaq 100 subiu 0,2%. Cooper credita a estabilidade a um “cenário de forte crescimento, impulsionado em parte pelos investimentos em inteligência artificial”.

Mas o descolamento entre renda fixa e bolsa pode não durar. Se o prêmio de prazo seguir subindo, o custo de capital para empresas de longo ciclo encarece — e a valorização de ações baseada em fluxos de caixa distantes perde sustentação.

O que observar daqui para frente

Três gatilhos ditam o próximo passo: (1) dados de inflação (CPI/PCE) nas próximas semanas — qualquer surpresa altista reforça o ciclo de alta do Fed; (2) leilões de títulos longos — demanda fraca eleva ainda mais o term premium; (3) preço do petróleo — se o Brent firmar acima de US$ 105, a narrativa de inflação persistente ganha força. Para quem gere carteiras, a lição é clara: duration longa segue zona de risco até que o fiscal dê sinais de ancoragem ou a energia arrefeça.