O Governo Central fechou agosto com déficit primário de R$ 13,6 bilhões, um número melhor que o esperado pelo mercado e inferior ao mesmo mês de 2025. A aparente boa notícia, porém, mascara uma deterioração silenciosa nas contas anuais que exige atenção imediata de quem gere capital no país.
O resultado superou as projeções de analistas, que apostavam em um rombo de R$ 16 bilhões. Mas, ao olhar para o acumulado do ano, o sinal de alerta acende: o déficit já soma R$ 94,9 bilhões contra R$ 85,9 bilhões no mesmo período do ano passado.
Arrecadação surpreende e puxa melhora mensal
O fôlego de agosto veio da receita. A arrecadação líquida cresceu 3,5% acima da inflação na comparação anual, impulsionada por um desempenho robusto das receitas administradas pela Receita Federal, que avançaram 5,6% em termos reais.
Três pilares sustentaram essa alta:
- Cofins, Imposto de Importação e IPI lideraram os ganhos tributários;
- Previdência Social subiu 6,3%, turbinada por massa salarial 2,9% maior, Simples Nacional aquecido e reoneração da folha;
- Royalties de petróleo e gás (PPSA) injetaram receitas extras relevantes.
O resultado conjunto do Tesouro e do Banco Central chegou a ser superavitário em R$ 5 bilhões no mês, o que demonstra a força do caixa operacional momentâneo.
Fundo eleitoral e Previdência pesam no orçamento
Se a receita brilhou, as despesas guardaram as surpresas negativas. O grande vilão do mês foi o repasse de R$ 4,9 bilhões ao Fundo Eleitoral (FEFC), despesa inexistente em agosto de 2025 e que distorce a base de comparação.
Além do fator eleitoral, pressões estruturais seguem intocadas:
- Benefícios previdenciários consumiram R$ 2,7 bilhões a mais;
- Abono salarial e seguro-desemprego adicionaram R$ 2,4 bilhões;
- Créditos extraordinários para mitigar impactos do Oriente Médio somaram R$ 1,3 bilhão.
Em contrapartida, as despesas discricionárias caíram R$ 5,6 bilhões, com a saúde sozinha encolhendo R$ 2,9 bilhões — um corte que pode cobrar sua fatura na qualidade do serviço público adiante.
No acumulado, o cenário ainda assusta
O déficit de R$ 18,6 bilhões da Previdência Social em agosto ajuda a explicar por que o ano segue no vermelho profundo. Mesmo com receitas crescendo, o gap estrutural entre o que entra e o que sai para aposentadorias e pensões impede a consolidação fiscal.
O Tesouro Nacional destaca que, excluído o efeito calendário e o fundo eleitoral, haveria uma melhora real. Contudo, para o investidor e o empresário, o que conta é o fluxo real de caixa: o Governo Central gasta sistematicamente mais do que arrecada há oito meses consecutivos.
O que observar daqui para frente
Os próximos relatórios bimestrais de receitas e despesas ditarão se o governo conseguirá atingir a meta fiscal de 2026 sem novas medidas de força. Dois vetores merecem monitoramento contínuo: a sustentabilidade da arrecadação extraordinária (commodities e reoneração) e a trajetória dos gastos obrigatórios, que não cedem nem com cortes discricionários agressivos. Quem precifica risco Brasil deve manter o radar ligado na execução orçamentária de setembro — o mês costuma revelar a verdadeira intenção fiscal para o fechamento do ano.
