Um estudo inédito do Projeto Desapocalíptica (Avaaz) com o Datafolha revela que o crescimento da abstenção — quase um quarto do eleitorado no último pleito — não nasce de descrença ideológica, mas de exaustão física e isolamento social. O dado muda radicalmente a leitura sobre o risco democrático e acende um alerta para quem gere capital humano ou risco regulatório.
O diagnóstico: “Desvinculados” não comparecem
A pesquisa criou o “Termômetro do Bem Viver” e dividiu a população em dois perfis comportamentais. De um lado, os vinculados: conectados à comunidade, à natureza e com rede de apoio. Do outro, os desvinculados: isolados, exaustos e dependentes de telas.
A correlação com o voto é direta e brutal:
- 9 em cada 10 vinculados vão às urnas;
- 47% dos desvinculados já deixaram de votar ou votam raramente;
- 27% dos desvinculados desistiram totalmente do voto.
A frase que resume o achado, segundo a diretora Nana Queiroz, é direta: “gente exausta não consegue esperançar”.
A juventude como epicentro do risco sistêmico
O recorte etário expõe a fragilidade futura. Entre 18 e 34 anos, 44% são desvinculados contra apenas 21,6% de vinculados. Inverte-se a lógica histórica: quanto mais velho, maior o vínculo comunitário e a participação política.
Para investidores e gestores, isso sinaliza uma geração entrando no mercado de trabalho e na vida cívica com níveis críticos de burnout e desconexão. O “antídoto” identificado pelo estudo — o contato com a natureza — é hoje um privilégio urbano, não um direito garantido.
A “Política da Exaustão” e a conta para o setor produtivo
O estudo batiza de “política da exaustão” o tripé que sustenta esse ciclo: jornadas 6×1 que impedem convívio social, algoritmos de redes sociais não regulados que lucram com a raiva e a retenção infinita, e cidades sem áreas verdes seguras.
Não é coincidência que pautas como o fim da escala 6×1 e a regulação de plataformas digitais tenham saído da margem para o centro do debate legislativo. Empresas que dependem de mão de obra intensiva ou de publicidade digital precisam precificar o risco de mudanças regulatórias abruptas nos próximos ciclos.
Democracia como ativo de estabilidade econômica
O vínculo comunitário dita a fé nas instituições. Enquanto 79% dos vinculados consideram a democracia inegociável, esse número despenca para 30% entre os desvinculados.
Mesmo quem vota age por pragmatismo defensivo — “redução de danos” — e não por esperança de transformação. Um eleitorado que vota por medo, e não por projeto, gera instabilidade legislativa e dificulta consensos de longo prazo necessários para reformas estruturais.
O que observar daqui para frente
A filosofia do Bem Viver — matriz constitucional no Equador e na Bolívia — deixa o campo acadêmico e entra na pauta eleitoral concreta como métrica de bem-estar além do PIB. Três movimentos merecem monitoramento contínuo:
- Agenda legislativa: avanço de projetos sobre jornada de trabalho, direito ao desconectar e regulação de algoritmos;
- Políticas urbanas: investimento em infraestrutura verde e segurança em parques como política de saúde mental pública;
- Estratégia corporativa: programas de “bem viver” internos deixam de ser benefício de RH para virar fator de retenção e mitigação de risco reputacional.
A abstenção não é um problema apenas do TSE. É um sintoma de um modelo de organização social que esgotou a matéria-prima da economia e da política: o ser humano descansado e conectado.
