A Armani vai abrir as portas para negociações formais com LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica nas próximas semanas. O objetivo: vender uma fatia de 15% do grupo, conforme determinou o testamento de Giorgio Armani. Mas há um detalhe que ninguém comenta abertamente: os três gigantes não têm pressa para fechar o cheque.
O fundador morreu em setembro do ano passado, aos 91 anos. Desde então, a empresa tenta provar que consegue andar com as próprias pernas — algo que marcas familiares italianas raramente conseguem de primeira.
Uma participação dividida entre três pesos-pesados
A estrutura em discussão prevê que os 15% sejam repartidos entre os três investidores. “Ninguém quer se lançar de imediato, mas ninguém quer deixar a oportunidade passar. Assim, todos conseguem um lugar à mesa”, resume uma fonte próxima às conversas.
As reuniões, antes previstas para junho, foram adiadas para o fim de setembro ou início de outubro. O motivo: a nova gestão precisava de tempo para reorganizar a casa antes de receber compradores.
O que cada um ganha (e perde) com o negócio
- EssilorLuxottica: já licencia a marca Armani para óculos até 2038. Fontes dizem que o foco real está em expansão de tecnologia médica e EUA — comprar uma casa de moda não está no radar.
- L’Oréal: tem acordo de licenciamento de beleza até 2050. Investiu na Jacquemus, mas não opera marcas de moda. A prioridade é proteger o contrato atual.
- LVMH: demonstrou interesse, mas a Armani não se encaixa no portfólio: vende em faixas de preço mais baixas e depende mais de moda que de acessórios de alta margem.
Os laços pessoais entre a família Arnault e o estilista falecido ainda pesam. Mas não bastam para justificar a avaliação.
O abismo entre o que se pede e o que se oferece
A família Armani fala em € 10 bilhões (cerca de R$ 59 bilhões). Os potenciais compradores veem valor entre € 3 bilhões e € 7 bilhões (R$ 17,7 bi a R$ 41,5 bi). Se ninguém topar, a alternativa é um IPO.
Enquanto o preço não fecha, a receita caiu pelo segundo ano seguido: -2,8% em 2025, para € 2,19 bilhões. O EBITDA subiu 3,2%, para € 153 milhões, sustentado por cortes de custo e pela alta-costura Armani Privé.
A nova arquitetura por trás das cortinas
Giuseppe Marsocci, CEO há um mês da morte do fundador, contratou o Boston Consulting Group para redesenhar a estratégia. O conselho foi reformado: entraram Marco Bizzarri (ex-Gucci) e Federico Marchetti (fundador da Yoox). Leo Dell’Orco, da casa, virou presidente do conselho.
Na criação, Dario Vitale — ex-Miu Miu — assumiu a Emporio Armani, que responde por quase 1/3 do faturamento. A missão: rejuvenescer a linha sem perder a identidade. Ele também tocará a expansão em acessórios, chamada internamente de “grande oportunidade”.
O que observar daqui para frente
As negociações formais começam no fim de setembro. Acompanhe três sinais: se a LVMH avança além do “interesse inicial”, se a EssilorLuxottica aceita diluir o foco em medtech, e se a família Armani flexibiliza a avaliação. O verdadeiro teste não é vender a participação — é provar que a Armani cresce sem Giorgio. Quem comprar estará apostando nisso.
