Economia

O salto oculto da dívida: por que o próximo governo herda uma bomba de 4% do PIB

Gráfico da dívida pública brasileira acelerando para além de 4% do PIB ao ano, com ilustração de bomba-relógio fiscal
Projeção mostra dívida pública brasileira crescendo acima de 4% do PIB anualmente no próximo quadriênio.

A dinâmica da dívida pública brasileira está prestes a mudar de patamar: a projeção aponta para um crescimento superior a 4% do PIB ao ano no próximo quadriênio, quase o dobro do ritmo atual. O cenário desenha uma armadilha onde mesmo superávits primários robustos podem não impedir a explosão do estoque. Entender a mecânica por trás dessa aceleração é o primeiro passo para precificar o risco Brasil nos próximos anos.

Os três pilares que dobram a velocidade do endividamento

A deterioração não é um evento único, mas a convergência de três forças estruturais que se alimentam mutuamente. Juntas, elevam a trajetória da dívida de 2,8% para mais de 4% do PIB anuais.

  • Ponto de partida mais alto: O estoque encerra 2026 cerca de 12 pontos percentuais do PIB acima do nível de 2022.
  • Custo da rolagem: A dívida contratada na pandemia, com juros reais próximos de zero, venceu e foi refinanciada nas taxas atuais, elevando drasticamente a conta de juros.
  • Crescimento mais fraco: O PIB potencial desacelera porque o motor do ciclo atual — a redução da ociosidade — se esgotou.

O fim do crescimento “grátis” e o piso do desemprego

Entre 2023 e 2025, a economia surpreendeu: o desemprego caiu de 8,5% para 5,5% e o PIB rodou acima das expectativas. O detalhe crítico é a natureza desse avanço. Crescemos de forma extensiva, absorvendo mão de obra ociosa, sem ganhos de produtividade.

Com a taxa de desocupação próxima do piso estrutural, não há espaço para repetir o truque. A projeção natural é de estabilidade ou leve alta no desemprego, o que arranca o último pilar de sustentação do crescimento recente. O próximo ciclo será necessariamente mais lento.

A receita na mesa: ajuste de 2% do PIB em quatro anos

Na quinta-feira (24), Felipe Salto e Josué Pellegrini apresentaram no Estadão uma proposta concreta para estancar a sangria: gerar superávit primário de 2% do PIB em quatro anos. A divisão é assimétrica: um terço via receita, dois terços via despesa.

O lado da receita: corte linear nos gastos tributários

A aposta é uma redução de 23,5% nos benefícios fiscais. Exemplos práticos incluem a revisão da dedução integral de despesas médicas no IRPF, medida que beneficia majoritariamente as faixas de renda mais altas.

O lado da despesa: desindexar para desacelerar

Duas medidas são consideradas “essenciais” pelos autores para dobrar a curva do gasto obrigatório:

  • Desvincular o piso dos benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo;
  • Indexar os pisos constitucionais de saúde e educação pelo mesmo limitador do arcabouço fiscal.

Sem essas mudanças, o gasto primário obrigatório continua crescendo acima do teto, forçando juros reais mais altos por mais tempo.

Por que juros altos matam o ajuste (mesmo com superávit)

A lógica é mecânica: se o gasto primário cresce mais que o PIB potencial, o setor público injeta demanda num ritmo que a oferta não acompanha. O Banco Central reage elevando a Selic. Com juro real alto, a dinâmica da dívida se torna explosiva mesmo que o governo entregue o superávit de 2%.

A equação só fecha se a taxa de crescimento da despesa cair o suficiente para permitir a queda dos juros reais. É uma condição necessária, não opcional.

O que observar daqui para frente

A uma semana do primeiro turno, o debate público gira em torno de escândalos bancários e disputas no STF, enquanto o conflito distributivo real — quem paga a conta do ajuste — permanece nas sombras. Para o investidor e o gestor, o sinal de alerta está no silêncio dos candidatos sobre a desindexação dos gastos obrigatórios. Sem compromisso explícito com essa agenda, a trajetória de 4% ao ano torna-se o cenário base, pressionando a curva de juros longa e o câmbio independentemente do resultado das urnas.