A Embraer não nasceu do acaso — ela foi projetada, calculada e testada dentro das salas de aula e laboratórios do ITA. O instituto formou a espinha dorsal técnica que transformou o Brasil no terceiro maior fabricante de jatos comerciais do planeta.
Mas a conexão entre a escola e a empresa vai muito além de diplomas pendurados na parede. Ela explica por que o Gripen F, caça de quinta geração, fez seu primeiro voo com mais de 350 profissionais brasileiros envolvidos diretamente no desenvolvimento.
Da sala de aula para a linha de montagem
Fundado em 1950, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) tinha uma missão clara: criar capital humano para uma indústria que ainda não existia. O primeiro curso de engenharia aeronáutica formou 23 alunos. Hoje, a instituição responde por cerca de 40% dos engenheiros da Embraer.
A relação é simbiótica. A empresa financia laboratórios, cede profissionais para aulas práticas e define demandas reais que viram teses de mestrado e doutorado. Em troca, recebe profissionais que já conhecem a cultura, os processos e a linguagem técnica da casa no primeiro dia de trabalho.
Não é coincidência que o KC-390, maior avião militar já produzido no hemisfério sul, tenha tido sua arquitetura de sistemas desenhada por egressos do ITA. O mesmo vale para a família E-Jets, que domina o segmento de 70 a 130 assentos no mundo.
O efeito multiplicador nos números
Os dados mostram a escala dessa parceria:
- 12.000+ engenheiros formados pelo ITA desde a fundação
- 40% do quadro técnico da Embraer vem da instituição
- 350 profissionais brasileiros atuaram no desenvolvimento do Gripen F
- US$ 2,3 bi em exportações de defesa só em 2023
Mas o impacto não para na fabricante. Fornecedores de estrutura, aviônica, sistemas hidráulicos e software também concentram talentos formados em São José dos Campos. A cadeia inteira gira em torno do mesmo ecossistema de conhecimento.
Por que o modelo resistiu a crises e mudanças de governo
Diferente de outros setores estratégicos, a parceria ITA-Embraer sobreviveu a planos econômicos, mudanças de regime e até à privatização da empresa em 1994. A razão é pragmática: ambos dependem um do outro para manter competitividade global.
Quando a Boeing tentou assumir a divisão comercial da Embraer, o ITA foi citado explicitamente nos acordos de salvaguarda como ativo inseparável da soberania tecnológica. O negócio caiu, mas a lição ficou: o conhecimento concentrado no instituto é considerado patrimônio de segurança nacional.
Hoje, o instituto amplia parcerias com Saab, Airbus, Lockheed Martin e startups de mobilidade aérea urbana. Cada novo convênio traz equipamentos, bolsas e problemas reais para os alunos — e talentos pré-selecionados para os parceiros.
O próximo salto: mobilidade aérea urbana e defesa autônoma
O foco atual do ITA já não é apenas aviação convencional. Laboratórios de propulsão elétrica, inteligência artificial embarcada e materiais compósitos avançados recebem investimento direto da Embraer e da FAB.
O programa eVTOL da Eve, subsidiária da Embraer para táxis aéreos elétricos, tem equipe de engenharia com mais de 60% de egressos do instituto. O primeiro protótipo voou em 2023; a certificação é esperada para 2026.
Na defesa, o projeto de ala voadora não tripulada para missões de reconhecimento e ataque já roda em simulações desenvolvidas em parceria com o Departamento de Ciências Aeroespaciais. Testes em voo estão previstos para 2025.
O que observar daqui para frente
A renovação do corpo docente, a ampliação de vagas em engenharia de software e a criação de cursos de curta duração para profissionais da indústria sinalizam que o ITA entendeu: a próxima fronteira não é mais apenas aeronáutica — é digital, autônoma e integrada.
Para quem investe ou lidera negócios no setor, o indicador mais confiável não está nos balanços trimestrais. Está na fila de espera para o vestibular do ITA e nos laboratórios onde, agora mesmo, a próxima geração de jatos — tripulados ou não — já está sendo codificada.
