Cultura

Do picolé a 661 obras no ECAD: o ativo invisível que Rick construiu…

Rick, da dupla Rick & Renner, sorrindo no palco com microfone, simbolizando legado de 661 obras no ECAD
Rick deixou 661 obras registradas no ECAD, ativo intelectual que gera receita recorrente além da fama.

Rick, da dupla Rick & Renner, morreu aos 59 anos em um acidente de helicóptero dias após seu último show. A comoção é natural, mas o legado que ele deixa para o mercado da música vai muito além da saudade: são 661 obras registradas no ECAD, um portfólio de propriedade intelectual que gera receita recorrente e independe da fama momentânea.

Como um menino que vendia picolé e jornal no interior do Tocantins construiu um ativo desse tamanho? A resposta está em decisões de negócio tomadas décadas antes do sucesso.

A lição do “muro” entre concorrentes

Nos anos 80, em Brasília, Rick e Renner cantavam em casas noturnas vizinhas, separadas apenas por uma parede. No intervalo, um atravessava para ouvir o outro. Essa curiosidade mútua — em vez de rivalidade cega — selou uma parceria que duraria quatro décadas.

Para o empreendedor, o caso ilustra o valor da inteligência competitiva de proximidade. Enquanto a maioria protege o “segredo”, eles trocavam repertório e técnica. O resultado foi uma identidade sonora única: o “cowboy” e o “playboy”, perfis complementares que atingiram públicos distintos simultaneamente.

O caixa negativo que antecede a escala

Antes de “Ela é Demais” ou “Muleca” tocarem em todo rádio do país, o caixa era vermelho. Rick admitiu em entrevistas que, no início, ele e a esposa pulavam refeições para alimentar os filhos.

Esse período de burn rate alto e receita zero é o filtro que separa amadores de profissionais. A dupla insistiu na qualidade do produto (a canção) sem capital de giro. Quando o hit “Tira a Roupa” estourou em 1997, a estrutura já estava pronta para escalar.

Propriedade intelectual: o verdadeiro patrimônio

No Ecad, constam 661 obras cadastradas no nome de Rick. César Menotti resumiu a dimensão do ativo: “Não existe um repertório no Brasil hoje sendo tocado que não tenha a caneta do Rick”.

  • Composições para terceiros: “Página de Amigos” (Chitãozinho & Xororó), “Só Dá Você na Minha Vida” (Michel Teló, Daniel), “Poeira da Estrada” (João Paulo).
  • Receita recorrente: Direitos autorais de execução pública, mecânica e sincronização.
  • Proteção de downside: Mesmo se a dupla parasse de fazer shows, o catálogo continuaria pagando contas.

Essa é a definição clássica de renda passiva escalável: crie uma vez, venda infinitas vezes.

Mentoria como estratégia de ecossistema

Rick & Renner não fecharam a porteira após o sucesso. Em Betim (MG), foram a única dupla estabelecida a abrir o camarim e o palco para César Menotti & Fabiano, então iniciantes.

O gesto não foi apenas generosidade; foi investimento em deal flow e fortalecimento do gênero. Quem abre espaço para novos players expande o mercado total (TAM) e garante relevância na cadeia de valor. Quinze dias antes da morte, César Menotti & Fabiano lotaram o Villa Country em homenagem ao mentor. O retorno de reputação (brand equity) é imensurável.

O risco de concentração no “Key Man”

Rick planejava desacelerar. “Chegou a hora”, disse ele a amigos. Não deu tempo. A morte súbita expõe a fragilidade de negócios centrados em um único talento operacional (key person risk).

O empresário Bruno Avelar, amigo de 30 anos e também vítima do acidente, era a ponte comercial. A perda simultânea do artista principal e do gestor de confiança cria um vácuo de execução imediato. Renner anunciou a continuidade solo, mas a transição de uma marca dual para uma operação unitária testa a solidez dos contratos e da governança sucessória.

O que observar daqui para frente

Três movimentos definirão o valor do espólio nos próximos trimestres:

  1. Gestão do catálogo: Quem administrará as 661 obras? A eficiência na cobrança e licenciamento (sync para streaming, TV, publicidade) determinará o fluxo de caixa dos herdeiros.
  2. Carreira solo de Renner: A capacidade de manter a agenda de shows sem o parceiro compositor testará se a marca “Rick & Renner” era maior que a soma das partes.
  3. Valorização pós-morte: Historicamente, catálogos de ícones falecidos sofrem pico de streaming imediato seguido de estabilização. O desafio é converter o pico em assinantes de longo prazo.

Rick transformou picolé em propriedade intelectual. O caso ensina que ativos intangíveis, bem geridos, sobrevivem ao criador — e aos acidentes de percurso.