Economia

Crise no Ueno Bank: brasileira paga IOF ‘caríssimo’ para acessar próprio dinheiro

Estudante brasileira Taís Magno em Assunção, Paraguai, preocupada com dinheiro bloqueado no Ueno Bank
Taís Magno, 27 anos, não consegue acessar salário e investimentos após fechamento do Ueno Bank pelo Banco Central do Paraguai.

Uma estudante brasileira de 27 anos está sobrevivendo no Paraguai com cartão de crédito do Brasil e arcando com IOF de 6,38% a cada compra depois que o banco onde mantinha salário e investimentos teve as portas fechadas pelo Banco Central local. O dinheiro dela continua lá, bloqueado, e a única saída imediata custa caro.

Taís Magno, cearense que cursa Medicina Veterinária em Assunção, viu o aplicativo do Ueno Bank simplesmente parar de funcionar. Não houve aviso prévio, nem comunicação clara. Da noite para o dia, a conta corrente, a poupança e os CDBs ficaram inacessíveis.

O banco que era “bom demais para ser verdade”

O Ueno não era qualquer instituição. Maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, atraía clientes com cashback agressivo, descontos em redes varejistas e isenção de anuidade. Taís era correntista há três anos. “Escolhi pelos benefícios”, resume.

O modelo de negócio, porém, escondia fragilidades. Após revisão contábil, o índice de solvência — termômetro da capacidade de honrar compromissos — despencou para menos da metade do piso regulatório. O Banco Central do Paraguai interveio, nomeou administrador provisório e congelou ativos.

O custo invisível da contingência

Sem acesso aos próprios recursos, Taís recorreu ao cartão brasileiro. Cada real gasto no supermercado, na farmácia ou no transporte carrega o IOF de 6,38% sobre operações de câmbio. Em um mês de despesas correntes, o imposto pode consumir o equivalente a uma parcela do aluguel.

“Felizmente estou conseguindo usar meu cartão de crédito para o dia a dia, pagando um IOF caríssimo, mas é o que temos”, relata. A frase resume o dilema de quem tem dinheiro, mas não tem liquidez.

Garantia existe, mas o relógio corre devagar

A legislação paraguaia prevê cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos em até 15 dias corridos após a resolução da intervenção, prorrogáveis por mais 15. Na prática, o prazo máximo legal é de 30 dias. Taís conta com essa janela.

Enquanto espera, tentou abrir conta em cinco bancos diferentes. Conseguiu apenas na sexta tentativa. A corrida por novas contas saturou o atendimento nas instituições concorrentes — reflexo direto de milhares de clientes órfãos buscando abrigo.

  • Índice de solvência do Ueno: menos de 50% do mínimo exigido
  • Prazo legal para restituição: 15 a 30 dias corridos
  • IOF cartão internacional: 6,38% por transação
  • Tentativas para nova conta: 6 (sucesso na última)

Confiança abalada, mas não rompida

O episódio deixou cicatrizes. Taís admite que a confiança no sistema financeiro paraguaio foi abalada. Ainda assim, mantém avaliação positiva do país: carga tributária baixa, acesso a crédito imobiliário e custo de vida compatível com seu projeto de vida familiar.

“Todos os países precisam melhorar, mas este é um país muito bom passando por momento difícil. Tenho confiança de que vai passar”, diz. O marido é paraguaio, e o casal planeja seguir construindo patrimônio por lá.

O que observar daqui para frente

O desfecho da intervenção no Ueno Bank ditará o ritmo de recuperação de milhares de correntistas — brasileiros e paraguaios. Dois movimentos merecem atenção: a velocidade real de pagamento do fundo garantidor (o prazo legal nem sempre é o prazo efetivo) e a capacidade dos bancos concorrentes de absorver a demanda reprimida por abertura de contas sem deteriorar compliance ou prazos de análise.

Para quem vive ou investe no Paraguai, a lição prática é clara: diversificar instituições financeiras e manter reserva de liquidez em moeda forte acessível fora do sistema bancário local. O IOF de 6,38% é caro, mas a iliquidez total sai mais caro ainda.