Economia

O segredo do ‘Vorcaro paraguaio’: prisão, carros de luxo e o fim do Ueno Bank

Federico Vázquez Villasanti, fundador do Ueno Bank, preso no Paraguai por crimes financeiros
O "Vorcaro paraguaio" Federico Vázquez foi detido preventivamente, expondo esquema de crédito suspeito no Ueno Bank.

Federico Miguel Vázquez Villasanti, 36 anos, fundador do Ueno Bank, foi preso preventivamente no Paraguai acusado de crimes contra o patrimônio e operações de crédito suspeitas com empresas ligadas a ele. A trajetória do jovem herdeiro espelha, ponto a ponto, a derrocada de Daniel Vorcaro no Brasil. Mas a semelhança vai muito além da cela.

A intervenção do banco central paraguaio e a operação policial que levou Vázquez à custódia expuseram um império familiar construído ao longo de oito décadas. O que era apresentado como um caso de sucesso fintech revela agora rachaduras profundas na governança e no controle de riscos.

A ascensão meteórica e o império da família Vázquez

A história do Grupo Vázquez começa em 1945, com uma oficina mecânica em Assunção. O que era um negócio familiar diversificado — agronegócio, automotivo e financeiro — consolidou-se em um conglomerado com mais de 20 empresas, 5,5 mil colaboradores e faturamento diário superior a US$ 1 milhão.

Vázquez entrou na Credicentro, financeira fundada pelo pai em 1984, aos 18 anos, assumindo o cargo de CEO. Formado em marketing pela Universidade de Miami e com especializações em finanças pela INCAE e IAE Business School, ele liderou a transformação da Credicentro em Ueno Holding, controladora do Ueno Bank, em 2022.

O movimento mirava o boom digital: oferecer crédito ágil e conta digital para um mercado sub-bancarizado. O crescimento foi vertiginoso, atraindo olhares de investidores e reguladores.

O paralelo assustador com o caso Master

A comparação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, é inevitável e estrutural. Ambos herdaram grupos empresariais dos pais (Multipar, no caso brasileiro). Ambos comandaram expansões agressivas em fintechs próprias. Ambos viram o crescimento interrompido por intervenções de bancos centrais e prisões preventivas.

Nos dois casos, a suspeita central recai sobre a concessão de crédito a partes relacionadas — empresas do próprio grupo ou do banqueiro — sem a devida transparência ou provisionamento de risco. A “receita” de crescer emprestando para si mesmo cobrou a fatura.

Luxo, unicórnios e a operação policial

O estilo de vida extravagante foi outro ponto de convergência. Na quarta-feira (4), autoridades cumpriram mandado de busca na residência de Vázquez em Assunção. O que encontraram virou símbolo da era:

  • Uma estátua gigante de unicórnio — no jargão do mercado, startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão — no corredor próximo ao quarto do empresário;
  • Sete carros de luxo e duas picapes, todos na cor preta, avaliados em US$ 1,4 milhão.

A defesa do banqueiro afirma que ele está à disposição da Justiça e pleiteia a prisão domiciliar. Enquanto isso, o Ueno Bank segue sob intervenção, com a liquidez e a confiança dos depositantes postas à prova.

A narrativa de perseguição e o silêncio do mercado

Assim como Vorcaro, Vázquez adotou a estratégia de deslegitimar as críticas. Dois meses antes da prisão, ele publicou uma carta aberta no LinkedIn questionando a “insistência em desacreditar o Ueno”, alegando que a instituição era auditada por agências de rating e reguladores.

O argumento de que a fiscalização seria movida por concorrência invejosa não convenceu os promotores. A investigação aponta para indícios concretos de desvio de finalidade nos empréstimos, não para teoria da conspiração.

O que observar daqui para frente

Para investidores e empresários que operam na região, o caso acende três alertas vermelhos. Primeiro: a velocidade de crescimento de fintechs lastreadas em crédito próprio exige due diligence redobrada na governança de partes relacionadas.

Segundo: a intervenção no Ueno Bank pode contaminar a confiança no sistema financeiro paraguaio, afetando funding e spreads de concorrentes saudáveis. Terceiro: a cooperação regulatória entre Brasil e Paraguai tende a se intensificar, fechando o cerco a estruturas espelhadas de risco.

O desfecho judicial de Vázquez ditará o ritmo da recuperação — ou da liquidação — de um dos maiores conglomerados do país vizinho. O “unicórnio” no corredor era de gesso; o desafio agora é saber se o lastro era real.