O Brasil destinou R$ 77,16 bilhões em subsídios federais ao setor energético em 2025, mas a fatia para quem polui ainda assusta: 70% foram para petróleo, gás e carvão. Enquanto isso, fontes limpas cresceram 21% no mesmo período. A conta não fecha para a transição climática — e o bolso do consumidor sente o peso.
O mapa da desigualdade energética
O levantamento do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) revela um abismo. Dos R$ 77,16 bilhões totais, R$ 54,12 bilhões irrigaram combustíveis fósseis. Para as renováveis — solar, eólica e eletrificação de transportes — sobraram R$ 23,04 bilhões.
Na prática, a cada R$ 1 investido em energia limpa, R$ 2,35 foram para o setor fóssil. A proporção caiu 1,27 ponto percentual frente a 2024, mas o volume absoluto permanece concentrado em atividades que emitem gases de efeito estufa.
O motor oculto da conta de luz
Um único mecanismo explica grande parte dessa distorção: a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC). Em 2025, ela arrecadou R$ 14,11 bilhões — alta de 26,6% em um ano.
Esse encargo, pago por todos os consumidores de energia elétrica, banca termelétricas a diesel em sistemas isolados. É um subsídio cruzado: quem não tem acesso à geração distribuída financia a queima de óleo no Norte do país.
- Total 2025: R$ 77,16 bi (+4,4% vs 2024)
- Fósseis: R$ 54,12 bi (70,14%)
- Renováveis: R$ 23,04 bi (+20,89% vs 2024)
- Geração Distribuída: R$ 14,71 bi (63,9% das renováveis)
Transição que aprofunda desigualdades?
O salto das renováveis tem um protagonista: a geração distribuída (painéis em telhados de casas e comércios). Ela absorveu quase 64% dos incentivos verdes. Para Cássio Carvalho, assessor do Inesc, o modelo atual transfere custos para quem não tem capital para instalar placas solares.
“A política de subsídios precisa combinar expansão de fontes limpas com justiça distributiva”, alerta. Sem critérios de acesso, a conta de luz sobe para a base da pirâmide enquanto a classe média alta captura o benefício da geração própria.
O que muda em 2026 e onde apostar
O Ministério da Fazenda argumenta que o estudo reflete um cenário anterior a medidas emergenciais de 2026 — guerra no Irã e fechamento do Estreito de Ormuz pressionaram o petróleo. A pasta destaca a Lei dos Combustíveis do Futuro (14.993/2024) e dois vetores de capital:
- EcoInvest Brasil: meta de mobilizar R$ 190 bilhões em investimentos verdes.
- Fundo Clima: R$ 27,5 bilhões previstos apenas para 2026.
Esses números sinalizam uma reorientação orçamentária agressiva. A reforma dos subsídios, defendida por especialistas, deve mirar a desativação progressiva de benefícios a setores maduros — como a própria CCC — e redirecionar recursos para armazenagem, hidrogênio verde e universalização do acesso.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a curva de 2025 vira tendência ou exceção: a velocidade da reforma da CCC no Congresso, a execução orçamentária do EcoInvest e a regulação da geração distribuída para evitar subsídio regressivo. Empresas que anteciparem a precificação de carbono e a migração de contratos de energia livre terão vantagem competitiva direta. O sinal está dado: o dinheiro público começa a virar a chave, mas a porteira ainda está aberta para o passado.
