Internacional

O segredo da babá brasileira que virou deputada estadual nos EUA

Lorena Betts, brasileira de Mato Grosso, ex-babá Au Pair eleita deputada estadual em Massachusetts
Lorena Betts, imigrante brasileira que chegou como babá, agora legisla como deputada estadual em Massachusetts.

Sete brasileiros conquistaram cadeiras nas assembleias legislativas de quatro estados americanos nas últimas eleições de meio de mandato, todos pelo Partido Democrata. A vitória mais simbólica vem de Massachusetts: Lorena Betts, natural de Mato Grosso, chegou ao país há duas décadas pelo programa Au Pair para trabalhar como babá e, hoje, legisla em Boston.

O grupo eleito representa a maior bancada de origem brasileira da história. Mas como imigrantes que, em muitos casos, entraram sem documentos ou com vistos temporários, conseguiram transformar trajetórias de sobrevivência em capital político?

A bancada que ninguém previu

Massachusetts concentra quatro dos sete eleitos, reflexo da segunda maior comunidade brasileira dos EUA. Priscila Sousa, Rita Mendes, Danillo Sena e Lorena Betts dividem o mesmo estado. Em Connecticut, Farley Santos garantiu a reeleição. Nevada manteve Elaine Marzola no cargo pela terceira vez. O ponto fora da curva é a Flórida: Felipe Sousa-Lazaballet venceu em território majoritariamente republicano.

Todos são naturalizados americanos. A idade média gira em torno de 40 anos. Cinco já ocupavam o cargo e foram reconduzidos. Dois estreiam: Lorena e Felipe.

  • Lorena Betts (MA) – Ex-Au Pair, intérprete jurídica, cientista política.
  • Felipe Sousa-Lazaballet (FL) – Ex-beneficiário do DACA, ativista LGBTQIAPN+.
  • Priscila Sousa (MA) – Reeleita, criada em Framingham desde os 7 anos.
  • Rita Mendes (MA) – Advogada e corretora, chegou sem falar inglês aos 14.
  • Danillo Sena (MA) – Ex-DACA, cidadão desde 2018, no cargo desde 2020.
  • Farley Santos (CT) – Chegou aos 7 anos, indocumentado, reeleito em Danbury.
  • Elaine Marzola (NV) – Liderança na Assembleia, no país desde 1984.

Da sobrevivência ao poder: o fio condutor

Lorena Betts ilustra o arco comum. Formada em enfermagem no Brasil, viu o diploma não ser reconhecido. Virou tradutora para imigrantes, estudou Ciências Políticas e entrou na política comunitária. “A campanha foi sobre o poder das pessoas”, escreveu nas redes após a vitória.

Felipe Sousa-Lazaballet carrega narrativa parecida. Chegou aos 14 anos, filho de mãe solo, viveu na sombra até o DACA abrir portas. A cidadania veio só em 2021. A vitória na Flórida, estado de Ron DeSantis, tem peso simbólico: um imigrante, gay, filho de empregada doméstica, eleito pela oposição.

Priscila Sousa e Rita Mendes chegaram crianças, cresceram em redutos brasileiros (Framingham e Brockton) e subiram degrau a degrau: vereança, depois assembleia. Danillo Sena seguiu rota idêntica em Acton. Farley Santos e Elaine Marzola completam o mosaico: indocumentados na infância, hoje legisladores.

O que muda para a comunidade

A presença direta em comissões de imigração, educação e saúde altera a pauta. Em Massachusetts, o grupo já articulou verbas para programas de inglês, defesa de carteiras de motorista para indocumentados e apoio a pequenos negócios. Em Nevada, Elaine Marzola comanda comissões estratégicas. Na Flórida, Felipe será voz isolada, mas simbólica.

O eleitorado brasileiro, estimado em 1,9 milhão nos EUA (dados de 2022), passa a ter interlocutores que conhecem o caminho do consulado à cédula de votação.

O que observar daqui para frente

Dois vetores definem o próximo ciclo. Primeiro: a reeleição de Donald Trump acelera a mobilização ou gera recuo? Priscila Sousa admite que o clima hostil a imigrantes aumentou após 2016. Segundo: a transição de mandatos estaduais para federais. Nenhum dos sete ocupa cargo no Congresso Nacional — ainda. A idade média e o tempo de casa sugerem que a próxima década pode trazer o primeiro deputado federal de origem brasileira.

Enquanto isso, Lorena Betts assume em janeiro. A ex-babá de Mato Grosso terá voto em leis que afetam diretamente quem, como ela, um dia chegou com uma mala e um visto de Au Pair.