Justiça

O golpe que usa seu advogado real para roubar você: 3 mil vítimas em 10 meses

Advogado real com identidade roubada em golpe que vitimou 3 mil pessoas no RJ
Golpe do falso advogado usa identidades reais para roubar clientes; OAB-RJ registra 3 mil denúncias em 10 meses

A OAB-RJ recebeu mais de 3.000 denúncias de golpes do falso advogado apenas nos primeiros dez meses de 2025. A entidade agora pressiona a Secretaria de Segurança Pública a criar um campo específico no portal da Polícia Civil para registrar esses casos.

O volume assusta: uma média de dez denúncias por dia. Mas o mais perigoso não é o número — é a sofisticação. Os criminosos não inventam identidades; eles roubam a de profissionais reais.

Como o golpe funciona na prática

Tudo começa nos tribunais. Processos que não correm em segredo de justiça expõem nomes das partes, números dos autos, valores e o contato do advogado verdadeiro. Com esses dados em mãos, os golpistas montam uma estrutura convincente:

  • Criam número de WhatsApp com foto, nome e logotipo do escritório real
  • Entram em contato avisando que o processo foi ganho ou há alvará pronto
  • Exigem transferência via Pix para “liberar” o valor — sempre em nome do falso advogado

A vítima vê o nome correto, o número da OAB, a foto do profissional de confiança. Não há sinal vermelho óbvio.

A proposta que pode mudar o jogo

Em ofício assinado pela presidente Ana Tereza Basilio, a OAB-RJ solicita a inclusão da categoria “Golpe do Falso Advogado” no sistema de registro de ocorrências da Polícia Civil. O objetivo é duplo: facilitar a vida de quem foi lesado e gerar dados organizados para investigação.

Hoje, vítimas precisam encaixar o relato em categorias genéricas como “estelionato” ou “fraude eletrônica”. Isso dificulta o cruzamento de informações e mascara a real dimensão do problema.

O impacto vai além do prejuízo financeiro

Cada golpe bem-sucedido abala a confiança na advocacia como instituição. O escritório verdadeiro — que nada tem a ver com a fraude — sofre danos reputacionais difíceis de reparar. Clientes passam a desconfiar até de comunicações legítimas.

A OAB-RJ lançou uma cartilha de orientação, mas admite: a velocidade dos criminosos supera a capacidade de alerta preventivo. “Não se pode permitir que a advocacia seja maculada por estelionatários”, escreveu Basilio no documento.

O que observar daqui pra frente

A decisão da Secretaria de Segurança Pública sobre a nova categoria de registro deve sair nas próximas semanas. Se aprovada, será o primeiro estado a ter nomenclatura específica para esse crime — o que pode virar referência nacional.

Enquanto isso, a regra de ouro permanece: advogado não pede Pix para liberar alvará. Qualquer cobrança para “desbloquear” valores de processo é golpe. Confirme sempre nos canais oficiais do escritório — não no número que te ligou.

O volume de denúncias sugere que estamos apenas na superfície. A criação de um canal dedicado pode finalmente revelar a real escala do problema — e dar às autoridades o mapa que hoje falta.