Justiça

Você não vai acreditar: senador vota dos EUA e muda rumo da PEC da Segurança…

Senador Flávio Bolsonaro votando remotamente dos EUA na sessão da PEC da Segurança Pública
Flávio Bolsonaro participa de votação no Senado brasileiro enquanto está nos Estados Unidos.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou presença e votou remotamente dos Estados Unidos na terça-feira (3), durante a sessão que aprovou a PEC da Segurança Pública por unanimidade. O parlamentar está fora do país há uma semana, após descumprir determinação judicial de entrega de passaportes. A participação levanta dúvidas sobre os limites do sistema de deliberação remota e suas consequências para a governança legislativa.

O que aconteceu na sessão de terça-feira

A sessão semipresencial aprovou a Proposta de Emenda à Constituição que amplia a integração entre órgãos de segurança federais, estaduais, municipais e do Distrito Federal. O texto-base passou sem oposição, mas as emendas revelaram divisões estratégicas.

Flávio Bolsonaro votou a favor da proposta original do governo. Também apoiou a Emenda nº 85, de Carlos Portinho (PL-RJ), que permite às Forças Armadas acessar recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública para atuar em crimes transfronteiriços, ambientais e em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

O único voto contrário do senador foi contra o requerimento do relator Rogério Carvalho (PT-SE) para separar as emendas que reduzem a maioridade penal de 18 para 16 ou 14 anos. Esse destaque foi aprovado por 38 votos a 36, mantendo a discussão sobre maioridade penal fora do texto principal.

O cenário jurídico por trás da votação remota

O senador deixou o Brasil na semana passada, após a derrota no segundo turno das eleições. A saída contraria decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a entrega dos passaportes à Polícia Federal no âmbito de investigação por suposta lavagem de dinheiro relacionada a apostas eletrônicas (bets).

Flávio Bolsonaro é alvo de duas investigações criminais no Supremo, graças ao foro privilegiado. Apesar de não ter comunicado à Mesa Diretora do Senado a ida aos EUA — alegando perseguição política —, seu mandato segue válido até janeiro de 2027. Nenhuma medida foi anunciada para bloquear seu acesso ao Sistema de Deliberação Remota (SDR).

Regras internas e a ação popular

O advogado Leonardo Nicolau Passos Marinho, autor de ação popular que pede a suspensão de salários e verbas de gabinete do senador, demonstrou surpresa com a participação remota. Segundo ele, o Regimento Interno exige licença prévia da Mesa Diretora para ausências.

  • Até o momento, não há registro de pedido de licença formal.
  • A ação popular continua tramitando; a votação remota não a invalida automaticamente.
  • O Itamaraty cobra explicações da diplomacia argentina sobre eventual auxílio na saída do país.

O Senado e o gabinete do parlamentar foram procurados para se manifestar, mas não responderam até o fechamento desta reportagem.

Por que isso importa para o ambiente de negócios

A situação expõe fragilidades no controle de frequência e na aplicação de decisões judiciais a detentores de mandato. Para investidores e empresários, o episódio sinaliza riscos institucionais: a capacidade do Congresso de funcionar com parlamentares fora da jurisdição nacional, sem licenciamento prévio, pode criar precedentes de difícil reversão.

Além disso, a PEC da Segurança Pública impacta diretamente a atuação de forças federais e estaduais no combate ao crime organizado — setor que afeta logística, segurança patrimonial e custos operacionais de empresas em todo o território.

O que observar nas próximas semanas

A tramitação da PEC segue para a Câmara dos Deputados, onde o texto pode sofrer alterações substantivas. Paralelamente, três frentes merecem monitoramento contínuo: a resposta formal do Senado sobre a regularidade da votação remota; o desdobramento da ação popular no Judiciário; e eventuais medidas do STF sobre o descumprimento da ordem de retenção de passaportes. Cada uma dessas variáveis pode redefinir o equilíbrio entre prerrogativas parlamentares e accountability — fator crítico para a previsibilidade regulatória no país.