A disputa entre Washington e Pequim por minerais estratégicos injetou cerca de US$ 5 bilhões em um único projeto brasileiro de terras raras nos últimos meses. O volume equivale a quase 5% de todo o investimento estrangeiro direto que o país recebeu em 2024. Mas a corrida não para em solo nacional — outros dois países emergentes estão no centro desse tabuleiro geopolítico.
O que está em jogo não é apenas cobre ou lítio. É o controle da cadeia que alimenta inteligência artificial, defesa e transição energética. E o Brasil, ao lado da República Democrática do Congo e do Cazaquistão, tornou-se peça-chave nessa engrenagem.
O novo superciclo não espera licenças ambientais
Em 2025, o governo americano e empresas dos EUA aportaram US$ 15,4 bilhões em minas no exterior — valor próximo de zero no ano anterior. Paralelamente, gigantes chinesas estatais ultrapassaram US$ 30 bilhões em aquisições externas. Juntas, as duas potências não injetavam tanto capital em mineração estrangeira desde o fim do último superciclo, há uma década.
O gatilho foi a retaliação chinesa de maio de 2025: Pequim restringiu exportações de sete terras raras essenciais a semicondutores e armamento. Washington respondeu com estoques estratégicos, preços garantidos a produtores e pressão direta sobre investidores privados. Um empresário texano relatou ter sido procurado oito vezes por autoridades federais.
O Banco Mundial reagiu quintuplicando seu fundo de apoio à mineração para US$ 20 bilhões. A condição: os países precisam provar capacidade de entrega rápida, não apenas posse de reservas.
Brasil: o “império” de terras raras que os EUA montam em Goiás
A aposta americana mais concentrada está em Minaçu (GO). Em setembro, a USA Rare Earth — empresa de capital aberto com participação do governo dos EUA — assumiu o controle da Serra Verde, única produtora fora da Ásia de quatro das terras raras mais críticas: disprósio, térbio, neodímio e praseodímio.
- Já investido: US$ 2,8 bilhões (R$ 15,3 bi) na aquisição
- Previsto total: quase US$ 5 bilhões (R$ 27,4 bi) com aportes do Departamento de Guerra e da Corporação Financeira de Desenvolvimento (DFC)
- Entrada em operação: projetada para dentro de 12 meses
A DFC, reformulada sob a gestão Trump, recebeu US$ 205 bilhões para atuar como braço financeiro da estratégia mineral americana. Antes, a instituição financiava clínicas e ONGs ambientais.
Cazaquistão: tungstênio, família Trump e a disputa por Kairakty
Enquanto o Brasil foca em terras raras, o Cazaquistão virou arena para o tungstênio — insumo insubstituível em munições de alta penetração e ligas aeroespaciais. Em novembro de 2025, a Kaz Resources, apoiada pelo governo americano e com Eric Trump e Donald Trump Jr. entre seus investidores, comprometeu US$ 1 bilhão (R$ 5,48 bi) nos depósitos de Kairakty e Northern Katpar.
O valor representa quase 5% do fluxo anual de IED do país centro-asiático. Outros US$ 1,6 bilhão podem vir da DFC e do Exim Bank. Mas a China não ficou parada: Pequim fechou acordos superiores a US$ 10 bilhões no Cazaquistão no mesmo período, incluindo uma mina de tungstênio concorrente. Autoridades americanas admitem que a Kaz Resources precisou oferecer prêmio acima do esperado para vencer a licitação.
RDC: o laboratório extremo da nova geologia política
O caso mais radical é a República Democrática do Congo. Em 2025, investimentos estrangeiros em mineração equivaleram a 8% do PIB congolês — mais que o dobro do IED total de 2024. Empresas chinesas já detêm ativos de cobre comprados a preços de liquidação na última década; agora, fundos americanos negociam 40% de uma mina da Glencore, enquanto a startup californiana KoBold Metals explora lítio em Manono.
A DFC sinalizou até US$ 1 bilhão para a ferrovia Dilolo-Sakania, maior obra de infraestrutura congolesa em dez anos, conectando o cinturão de cobre a Angola. A Iniciativa para Transparência nas Indústrias Extrativas projeta US$ 8 bilhões em receitas fiscais entre 2026 e 2030 — podendo chegar a US$ 20 bilhões, ou cerca de um orçamento anual do Estado.
Por que só cinco países concentram 80% do dinheiro
RDC, Brasil, Cazaquistão, Zâmbia e Canadá. Fora esse quinteto, a disputa mal aparece. A razão é logística, não geológica: apenas essas nações possuem minas antigas, paralisadas ou incompletas que podem ser reativadas em meses, não décadas.
O Chile, maior produtor mundial de cobre, ilustra o gargalo: a produção caiu por falta de reinvestimento em ativos envelhecidos, apesar da projeção de déficit de 8% na oferta global daqui a dez anos. Descobrir e desenvolver novos depósitos leva uma década ou mais. Enquanto isso, a interferência estatal de EUA e China distorce os sinais de preço que guiariam decisões privadas de exploração.
O que observar daqui para frente
A estratégia de “reativar o pronto” tem prazo de validade. Os orçamentos de exploração mineral nunca se recuperaram do fim do último superciclo. Se a demanda por cobre, lítio e terras raras mantiver a trajetória projetada, o atual fluxo de capital para Brasil, RDC e Cazaquistão será apenas a primeira onda.
Para investidores e gestores de cadeia de suprimentos, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a capacidade da Serra Verde de entregar dentro do cronômetro de 12 meses; a execução da ferrovia Dilolo-Sakania como teste de infraestrutura em ambiente de alto risco; e a definição de regras claras no Cazaquistão sobre participação estatal em joint ventures — o governo local já forçou termos mais favoráveis do que os ofertados inicialmente pelos americanos.
Quem controlar a velocidade de conversão de reserva em produto venderá não só minério, mas segurança de fornecimento. E esse prêmio, por enquanto, não tem teto.
