BNDES e Petrobras acabam de confirmar um aporte de aproximadamente R$ 10 milhões para a agricultura familiar no semiárido da Bahia. O dinheiro vai chegar a 720 produtores em 26 municípios — mas a forma como será aplicado guarda um detalhe que muda tudo para quem acompanha o agronegócio regional.
A execução ficará a cargo da Unicafes Bahia, dentro do programa Sertão + Produtivo. O prazo é de 36 meses. O que vem a seguir explica por que esse desenho difere dos repasses convencionais.
Recorte social: mulheres, jovens e quilombolas no centro
Dos 720 beneficiários diretos, 504 são mulheres e 504 são jovens — os grupos se sobrepõem. Outros 45 são quilombolas. A deliberação não é cosmética: o edital priorizou municípios onde a agricultura familiar responde por 78,24% dos estabelecimentos rurais e onde tecnologias sociais de acesso à água já existem, mas carecem de escala.
Seis cidades entraram na lista de prioridade máxima: Pintadas, Guajerú, Jacaraci, Ibiassucê, Presidente Jânio Quadros e Condeúba. A seleção cruzou indicadores de presença da agricultura familiar, volume de compras públicas e infraestrutura hídrica disponível.
O que o dinheiro compra na prática
O projeto não se resume a repasse de custeio. A arquitetura prevê ativos produtivos e canais de escoamento:
- 240 sistemas agroecológicos funcionando como unidades de referência
- 11 unidades de beneficiamento: 3 minicentrais de abastecimento, 4 fábricas de ração, 4 entrepostos de ovos
- 12 feiras semanais agroecológicas/orgânicas — venda direta produtor-consumidor
- 180 oficinas, 7,2 mil visitas técnicas e 900 reuniões de Ater
No eixo de produção animal, destacam-se 120 sistemas para ovos caipiras, 40 quintais com canteiros e galinheiros, 40 sistemas PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável) e 40 quintais associados a tecnologias de armazenamento de água.
Territórios e municípios: onde o recurso pousa
A atuação concentra-se em cinco Territórios de Identidade: Bacia do Jacuípe, Piemonte do Paraguaçu, Portal do Sertão, Sertão Produtivo e Sudoeste Baiano. A lista completa engloba Anagé, Anguera, Barra do Choça, Caculé, Caetité, Candiba, Condeúba, Encruzilhada, Feira de Santana, Iaçu, Ibiassucê, Ipirá, Irará, Jacaraci, Licínio de Almeida, Nova Fátima, Pé de Serra, Pintadas, Poções, Presidente Jânio Quadros, Riachão do Jacuípe, Santa Bárbara, Santanópolis, Várzea da Roça, Guajerú e Planalto.
O semiárido baiano abrange 287 municípios em 22 Territórios — 85,6% do território estadual e 53,1% da população. A capilaridade do projeto, porém, mira onde a estrutura coletiva (cooperativas e associações) já opera: 27 empreendimentos ativos.
A aposta nos mercados institucionais
O BNDES explicitou a meta: ampliar produção e renda, agregar valor, melhorar gestão e fortalecer acesso a mercados institucionais — PNAE (Alimentação Escolar) e PAA (Aquisição de Alimentos) — além do mercado privado. A existência de unidades de beneficiamento e feiras próprias é o elo que faltava para transformar volume em contratos recorrentes.
Mas o efeito mais relevante aparece na lógica de réplica: os 240 sistemas de referência foram desenhados para disseminar práticas adaptadas ao clima local, não para serem ilhas de excelência.
O que observar daqui para frente
O cronograma de 36 meses testa a capacidade de execução da Unicafes Bahia em escala. Dois marcos merecem acompanhamento próximo: a entrega das 11 unidades de beneficiamento (sem elas, o gargalo logístico persiste) e a adesão real dos produtores às 12 feiras semanais — indicador direto de viabilidade comercial. Se a estrutura de Ater (7,2 mil visitas) mantiver regularidade, o projeto vira caso de estudo para outras regiões do semiárido. Caso contrário, vira mais um relatório de boas intenções.
