Economia

Atividade da construção cai, mas empregos batem recorde: entenda o paradoxo de 2026

Canteiro de obras com muitos trabalhadores em infraestrutura, simbolizando recorde de empregos na construção civil em 2026 apesar de atividade em queda
Empregos na construção batem recorde em 2026 mesmo com atividade em retração no terceiro trimestre.

O setor da construção civil fechou o terceiro trimestre de 2026 em marcha lenta, pressionado pelos juros altos, mas esconde um dado surpreendente: o mercado de trabalho nunca esteve tão aquecido. Como é possível criar vagas recordes enquanto a atividade encolhe? A resposta está no tipo de canteiro de obras que tem ditado o ritmo.

O freio nos juros e o custo que não para de subir

O indicador de atividade recuou tanto na comparação com o trimestre anterior quanto com o mesmo período de 2025. O vilão principal tem nome e sobrenome: taxa Selic. Para 40% dos empresários ouvidos pela Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), o custo do dinheiro é o maior entrave atual — o maior percentual desde o terceiro trimestre de 2023.

O endividamento das famílias e o crédito caro travam lançamentos e vendas no segmento imobiliário. O INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) acumula alta de 6,64% em 12 meses até setembro, bem acima da inflação oficial (4,58%). A mão de obra subiu 7,78% e materiais avançaram 6,06%, comprimindo margens e dificultando o planejamento.

Infraestrutura: o motor invisível dos 200 mil empregos

Enquanto o residencial freia, a infraestrutura acelera. De janeiro a agosto, o setor abriu 200.431 vagas formais. Desse total, 79.065 postos vieram de obras de infraestrutura — salto de 26,89% frente a 2025, superando a construção de edifícios.

Em agosto, o estoque de trabalhadores com carteira assinada atingiu 3,15 milhões, o maior nível da série histórica do Novo Caged (iniciada em 2020). O crescimento de 3% em 12 meses contrasta com a queda de produção.

Onde as vagas estão nascendo

A expansão não está nas capitais tradicionais do imobiliário, mas no interior do país, puxada por projetos de longo ciclo:

  • Energia renovável: complexos eólicos e solares;
  • Transmissão: linhas de grande porte leiloadas nos últimos anos;
  • Industrial: fábricas de celulose e plantas de etanol.

São Paulo lidera em números absolutos, mas Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte e Salvador também aparecem no topo. Na capital paulista, serviços especializados responderam por 59,32% das novas vagas.

O que esperar para 2027: a conta que não fecha

A projeção da Cbic para o PIB da construção em 2026 é de crescimento modesto de 1,2%, sustentado pelo primeiro semestre forte e pelo emprego em infraestrutura. Para 2027, a aceleração consistente depende de duas variáveis: queda dos juros e arrefecimento dos custos.

“O crescimento em 2027 será sustentado pelos dois segmentos”, afirma Ieda Vasconcelos, economista-chefe da entidade. Ela pondera, porém, que a maior preocupação reside no mercado imobiliário, ainda refém do crédito caro e do endividamento das famílias.

Reforma tributária: o novo fantasma no canteiro

Além da macroeconomia, um desafio operacional surge no horizonte: a emissão de nota fiscal na venda de imóveis. Historicamente, a promessa de compra e venda bastava. Com a reforma, a obrigatoriedade da nota fiscal exige sistemas e definições regulatórias que ainda não estão prontos.

“Nossa preocupação é grande, por conta dessa necessidade de definições que ainda estão por vir e que não dependem das nossas empresas”, alerta Eduardo Aroeira, presidente da Cbic. A escassez de mão de obra qualificada completa o trio de riscos para o próximo ano.

O que observar daqui para frente

O cenário desenha uma construção bipolar: infraestrutura robusta compensando imobiliário frágil. Para investidores e gestores, três sinais merecem monitoramento semanal: a curva de juros futuros (termômetro do crédito imobiliário), o ritmo de leilões de transmissão e geração (gatilho de novas frentes de obra) e a regulamentação da nota fiscal na reforma tributária (risco de paralisação burocrática nas incorporadoras). Quem antecipar esses movimentos, ganha tempo; quem esperar o consenso, paga mais caro.