Tecnologia

Em 2 anos só haverá robôs: o segredo que marcas de moda não contam

Modelo digital de IA em passarela virtual substituindo modelo real na moda
Marcas de fast fashion já usam gêmeos digitais de IA que reduzem custos em 90%.

Marcas de fast fashion já trocam modelos reais por versões digitais e reduzem custos de produção em 90%. Contratos confidenciais revelam cláusulas que permitem criar “gêmeos digitais” e trocar rostos sem pagamento extra. O alerta vem de dentro da indústria: em dois anos, a profissão como a conhecemos pode deixar de existir.

O golpe nos contratos: rosto trocado e gêmeos digitais

Uma investigação da Reuters analisou mais de uma dúzia de acordos propostos por gigantes como Diesel, Calvin Klein e L’Oréal. Os documentos, ainda não assinados, expõem exigências agressivas: autorização para alterar feições corporais, sobrepor o rosto de um modelo ao corpo de outro e gerar réplicas sintéticas para uso futuro.

A marca Reale Actives, por exemplo, pedia o direito de “possuir” a versão digital do modelo por um ano sem remuneração adicional. A Diesel solicitava permissão para “troca de rostos entre participantes”. A OTB, controladora da label italiana, disse que o documento era pontual e não reflete a prática padrão. A Calvin Klein afirmou estar “testando e aprendendo” dentro da legalidade.

O impacto direto no bolso e na carreira

Para quem vive da imagem, o cenário é de emergência. Adot Gak, modelo com campanhas para Balmain e H&M, resume: a principal fonte de renda — o e-commerce de moda rápida — está secando. Estúdios fotográficos fecham as portas e agências registram queda brusca de bookings.

O varejista europeu Zalando eliminou mais de 340 postos de trabalho ao fechar seus estúdios em Berlim. A subsidiária About You lançou a Scayle Studios, que promete gerar 190 mil imagens por mês para 130 marcas clientes. “Estamos economizando muito dinheiro”, admite Julian Jansen, VP de marketing da About You.

Marcas de luxo vs. fast fashion: quem adota primeiro?

A adoção segue duas velocidades. A espanhola Mango já usa modelos sintéticos em larga escala. A Zalando e a About You apostam tudo na automação via Scayle.

No segmento premium, a cautela predomina. A Moncler testou IA em 2023, mas nega uso atual em campanhas. A Gucci gerou polêmica ao publicar imagens artificiais no Instagram, mas não comentou o caso. A diferença está no valor percebido da “autenticidade” — por enquanto.

  • Redução de custo: até 90% menor que sessões tradicionais.
  • Velocidade: milhares de looks processados em dias, não semanas.
  • Controle total: iluminação, pose e biotipo ajustados por prompt.

Treinando o próprio substituto: a armadilha dos dados

Uma cláusula da Calvin Klein previa o uso de imagens “irreconhecíveis” — sem rosto, tatuagens ou cicatrizes — para treinar IAs generativas. Na prática, o modelo cede dados biométricos que aperfeiçoam o sistema que o tornará obsoleto.

Advogados especializados, como Melanie Howard (Loeb & Loeb), alertam: termos como “incluindo, mas não se limitando a” criam uma ambiguidade perigosa. A L’Oréal afirmou usar IA apenas para retoque de produto e embalagem, não para alterar a fisionomia do profissional.

A lei corre atrás do prejuízo: regulamentação fraca

Nova York saiu na frente. Desde junho de 2025, a Lei dos Trabalhadores da Moda proíbe réplicas digitais sem consentimento explícito. Sara Ziff, da Model Alliance, defende expansão para nível federal. No Reino Unido e na Europa, vigora apenas um código de conduta voluntário da associação de agentes.

John Horner, dirigente da entidade britânica, admite: sem obrigação legal, modelos jovens assinam cláusulas draconianas sem dimensionar o impacto daqui a uma década. “Aos 20 anos, você abre mão de direitos que afetam sua carreira aos 30”, resume Patrick Staal, da Uniko Models.

O que observar daqui para frente

A expansão da legislação estilo Nova York para Califórnia e União Europeia ditará o ritmo. Se grandes conglomerados (LVMH, Kering, Inditex) padronizarem cláusulas de “consentimento informado e remuneração por uso contínuo”, o mercado encontra equilíbrio. Caso contrário, a transição para estúdios 100% sintéticos — como a Scayle — vira padrão irreversível no varejo de volume. Para investidores e gestores, o sinal está dado: ativos de imagem e direitos de personalidade valem mais que o hardware fotográfico.