A Alphabet, controladora do Google, viu seu valor de mercado encolher US$ 500 bilhões em uma única sessão — a segunda maior evaporização diária da história de Wall Street. As ações caíram 13% depois que o balanço do terceiro trimestre expôs uma fratura no modelo de negócios mais lucrativo da empresa: a busca tradicional.
O mercado puniu não apenas os números, mas o que eles sinalizam sobre o futuro da publicidade digital.
O rombo no caixa que assustou até os otimistas
Pela segunda vez desde o IPO de 2004, o fluxo de caixa livre ficou negativo: US$ 9,1 bilhões no vermelho. O motivo é um só — investimentos em infraestrutura de IA que ultrapassaram US$ 50 bilhões no trimestre. A CFO Anat Ashkenazi confirmou que o capex anual pode chegar a US$ 205 bilhões, com compromissos futuros superiores a US$ 1 trilhão em data centers, energia e equipamentos.
Para bancar essa expansão, a empresa emitiu dívida e anunciou sua primeira oferta de ações em mais de duas décadas: US$ 85 bilhões. Anos de recompras deram lugar a captação líquida.
Busca com IA: mais usuários, menos dinheiro por clique
O diretor de negócios Philipp Schindler admitiu o que analistas temiam: o “modo IA” — respostas conversacionais que substituem listas de links — canibaliza a monetização tradicional. A receita de buscas cresceu 12% (US$ 63,4 bilhões), mas ficou abaixo das expectativas e desacelerou frente aos 20% anuais do início de 2024.
O dilema: cada consulta respondida pela IA custa mais para processar e rende menos em anúncios.
O contraponto que o mercado ignorou (por enquanto)
Nem tudo foi ruim. A nuvem do Google dobrou a receita para US$ 30,7 bilhões, impulsionada por:
- Demanda corporativa por modelos Gemini
- Venda de capacidade computacional a rivais como a Anthropic
- Estratégia “full-stack”: chips próprios, data centers e modelos integrados
A Microsoft, por comparação, entregou fluxo de caixa livre de US$ 18,6 bi com capex de US$ 45,2 bi — disciplina que o Google ainda não convenceu que tem.
Lucro líquido mascarado por investimento na SpaceX
O lucro caiu 25% (US$ 26,2 bi), mas o operacional subiu 30% (US$ 40,6 bi). A diferença? Um prejuízo de US$ 8,7 bi na carteira de investimentos, puxado pela queda de 4% na participação na SpaceX de Elon Musk. Uma multa europeia de US$ 5,2 bi (Android, 2018) também pesou no caixa.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o tombo vira oportunidade ou armadilha: (1) se a busca com IA encontra modelo de monetização sustentável antes que a participação de mercado erosionar; (2) se o capex de US$ 205 bi gera receita incremental na nuvem corporativa; (3) se a emissão de ações dilui acionistas sem acelerar o retorno. O próximo trimestre dirá se Sundar Pichai conseguiu transformar infraestrutura em lucro — ou apenas em promessa mais cara.
