Economia

PF indicia 15 no caso Master: líder preso, ex-BRB e elo com empresa de fachada

Polícia Federal indicia 15 no caso Master: líder preso e ex-diretores do BRB
PF indicia 15 por crimes financeiros na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB.

A Polícia Federal fechou o primeiro inquérito sobre o Banco Master e indiciou 15 pessoas por crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB. O relatório aponta para uma estrutura em núcleos — estratégico, executivo, operacional, jurídico e de interposição empresarial — que teria viabilizado a transferência de ativos podres para o banco público de Brasília.

O desfecho coloca sob suspeita desde o controlador do Master até diretores de carreira do BRB. A pergunta que fica: até onde a cadeia de comando sabia do que estava sendo assinado?

O núcleo que ditava as regras

No topo da pirâmide, a PF coloca Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, preso desde março de 2026 na Papuda. Ele seria o responsável pela articulação institucional entre os dois bancos e pela coordenação dos demais grupos. A defesa classifica o indiciamento como “açodado” e diz que a investigação antecipa conclusões não comprovadas.

Ao lado dele, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (jan/2019–nov/2025), indicado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB). Preso em abril, é acusado de integrar o mesmo núcleo decisório. Seus advogados sustentam que mensagens de aplicativo provam que ele desconhecia fraudes nas carteiras e que documentos do Banco Central foram ignorados.

Executivos, contador e a ponte operacional

O chamado núcleo executivo-financeiro reúne nomes que assinaram contratos e ofícios aos órgãos de controle:

  • Augusto Ferreira Lima — ex-sócio de Vorcaro, dono do Banco Pleno (ex-Voiter), liquidado pelo BC em fevereiro. Defesa alega que saiu do Master em maio de 2024, antes das operações investigadas.
  • Angelo Antônio Ribeiro da Silva — diretor do Master, signatário de instrumentos com a Tirreno. Neva participação.
  • Luiz Antonio Bull — diretor de contabilidade, preso na Operação Compliance Zero (nov/2025). Assinou documentos semelhantes.
  • Alberto Félix de Oliveira Neto — superintendente de tesouraria, signatário do contrato com a Tirreno. Em depoimento, alegou apenas cumprir ordens.

Fechando a engrenagem operacional, Allan da Silva Machado, gerente de operações, é o único apontado no núcleo de formação documental. Caberia a ele importar dados, montar as carteiras e gerar CCBs, procurações e termos de assinatura destinados ao BRB.

A empresa de fachada e o braço jurídico

O relatório detalha o papel da Tirreno, cuja capital saltou de R$ 100 para R$ 30 milhões. Três nomes compõem o núcleo de interposição empresarial:

  • Henrique Souza e Silva Peretto — proprietário formal.
  • André Felipe de Oliveira Seixas Maia — ex-funcionário do Master e diretor da Tirreno.
  • Perícia aponta que a empresa não tinha estrutura, empregados nem patrimônio; o Master comprou créditos da Tirreno “sem realizar qualquer pagamento” e os revendeu ao BRB.

No núcleo jurídico, Daniel Lopes Monteiro, advogado do Master e sócio do Monteiro Rusu Advogados, preso preventivamente em abril. O MPF aponta que ele teria obtido ao menos R$ 86 milhões em proveito próprio. A defesa diz que sua atuação foi estritamente técnica.

Diretores do BRB: omissão ou conivência?

Quatro executivos de carreira do banco público foram indiciados por participarem de deliberações que aprovaram as operações por unanimidade, sem registrar oposição:

  • Dario Oswaldo Garcia Junior — diretor de finanças e controladoria, afastado em nov/2025, bens bloqueados, passaporte apreendido. Defesa o chama de “vítima”.
  • Luana de Andrade Ribeiro — diretora de controle e riscos, afastada em setembro. Agenda continha anotação de que o presidente determinou a compra “para salvar o Master”.
  • Cristiane Maria Lima Bukowitz — diretora de gestão de pessoas, presente nas deliberações sem se manifestar contra.
  • Diogo Ilário de Araújo Oliveira e José Maria Correa Dias Junior — diretores de atacado/governo e tecnologia, destituídos em abril. PF delimita vínculo às reuniões em que votaram.

O que observar nos próximos capítulos

O inquérito concluído é apenas o primeiro. A PF já sinalizou que outras frentes — lavagem de dinheiro, evasão de divisas e possíveis beneficiários finais dos recursos — seguem abertas. O Ministério Público Federal deve agora decidir se denuncia, pede arquivamento ou solicita diligências complementares.

Para quem acompanha o setor, três pontos merecem radar: o destino dos ativos já transferidos ao BRB, a eventual responsabilização civil do banco público e os desdobramentos da liquidação do Banco Pleno. A palavra final ainda está longe de ser escrita.