Economia

O segredo dos 200 mil empregos na construção enquanto o setor encolhe

Trabalhadores da construção civil em canteiro de obras com gráficos de emprego e atividade
Setor encolhe em atividade, mas bate recorde de 200 mil vagas formais em oito meses

A atividade da construção civil recuou no terceiro trimestre de 2026, mas o mercado de trabalho formal bateu recorde histórico. Como um setor que encolhe consegue gerar 200 mil vagas em oito meses? A resposta está na divisão entre dois mundos distintos.

O indicador de atividade da CNI/Cbic caiu para 45,9 pontos, abaixo dos 47,8 do trimestre anterior e bem distante dos 50 pontos que separam expansão de retração. É o sinal claro de que o ritmo produtivo perdeu fôlego.

O termômetro da atividade: abaixo de 50 pontos

Na média dos nove primeiros meses do ano, o índice ficou em 46,2 pontos — um ponto a menos que no mesmo período de 2025. A utilização da capacidade operacional também recuou nas duas comparações, trimestral e anual.

Para 2026, a projeção da Cbic aponta crescimento de apenas 1,2% no PIB do setor, sustentado pelo primeiro semestre e pelo emprego em infraestrutura. A aceleração consistente em 2027 depende, segundo o relatório, da queda dos juros e do arrefecimento dos custos.

O vilão apontado por 40% dos empresários

A taxa de juros elevada foi citada como o principal problema por 40% dos consultados, maior percentual desde o terceiro trimestre de 2023. O custo do crédito, o endividamento das famílias e o encarecimento dos insumos travam planejamentos e limitam a expansão.

“A taxa de juros ser elevada impacta bastante o nosso negócio. Impacta não só a produção nem só a venda, mas o consumo das famílias”, afirmou Eduardo Aroeira, presidente da Cbic.

Custos corroem margens: INCC acima da inflação

A pressão aparece nos números. O INCC acumulou alta de 6,64% nos 12 meses até setembro, superando a inflação oficial de 4,58%. A mão de obra subiu 7,78%, enquanto materiais e equipamentos avançaram 6,06%.

  • INCC 12 meses: +6,64%
  • IPCA mesmo período: +4,58%
  • Mão de obra: +7,78%
  • Materiais e equipamentos: +6,06%

O contraponto: infraestrutura puxa fila de contratações

Mesmo com a atividade em retração, a construção encerrou agosto com 3,15 milhões de trabalhadores com carteira assinada — o maior contingente desde o início da série do Novo Caged, em janeiro de 2020. O total representa alta de 3% sobre agosto de 2025.

De janeiro a agosto, foram 200.431 vagas formais criadas. Desse total, as obras de infraestrutura responderam por 79.065 postos, um salto de 26,89% frente aos 62.312 do mesmo período de 2025. Pela primeira vez, o segmento superou a construção de edifícios em geração de empregos.

Onde as vagas estão nascendo: interior e energia

Segundo a economista-chefe Ieda Vasconcelos, o avanço reflete a execução de projetos contratados em leilões e concessões recentes, além de investimentos privados em empreendimentos industriais e energéticos. A expansão concentra-se no interior do país.

  • Complexos de energia renovável (eólica e solar)
  • Linhas de transmissão de grande porte
  • Fábricas de celulose e instalações industriais

Nas capitais, São Paulo liderou em números absolutos, com destaque para serviços especializados (59,32% das vagas). Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte e Salvador completam o topo da lista.

Projeção para 2026 e o “se” de 2027

“Vivenciamos um ciclo de expansão da infraestrutura longo e que vai continuar. O crescimento em 2027 será sustentado pelos dois segmentos”, projeta Ieda. A maior preocupação, porém, recai sobre o mercado imobiliário, ainda sufocado por juros altos e endividamento das famílias.

Reforma tributária e mão de obra: os próximos abacaxis

Além do cenário macroeconômico, dois desafios estruturais entram no radar para 2027. A reforma tributária exige a emissão de nota fiscal na venda de imóveis — procedimento inexistente até hoje no setor — e as regras operacionais ainda não estão definidas.

“Nunca emitimos nota fiscal para venda de apartamento. Com a nova reforma, passamos a ter que emitir, e essa nota também não está preparada. Nossa preocupação é grande”, explicou Aroeira. A escassez de mão de obra qualificada completa a lista de gargalos.

O que observar daqui pra frente

O cenário desenha uma construção bicéfala: infraestrutura aquecida e imobiliário contido. Para o empresário ou investidor, três variáveis ditam o próximo trimestre: a trajetória da Selic, a definição das normas da reforma tributária sobre imóveis e a capacidade do setor de treinar ou atrair trabalhadores para canteiros cada vez mais espalhados pelo interior. Quem conseguir ler essa assimetria tende a encontrar oportunidades onde a média do mercado só vê retração.