As vendas brasileiras de itens contemplados pelo acordo Mercosul–União Europeia saltaram 21% nos primeiros cinco meses de vigência provisória, na comparação com igual intervalo de 2025. O número, divulgado ontem pelo Mdic, esconde uma disparidade gritante: enquanto o ministro Márcio Elias Rosa falava em 30% de alta semanas atrás, a pasta agora corrige para 21%. A diferença não é detalhe — ela revela quanto do boom vem realmente da redução de tarifas e quanto é ruído estatístico.
O tratado entrou em aplicação provisória em 1º de maio de 2026, após 27 anos de negociação. O recorte analisado vai até setembro. Parece pouco tempo, mas já basta para expor vencedores e perdedores silenciosos.
Os produtos que explodiram — e os que ninguém esperava
O topo da lista não tem soja, minério nem petróleo. São itens de nicho, alto valor agregado e tarifa zero imediata:
- Abacates frescos: +421%
- Mel: +367%
- Óleo de milho: +266%
- Ferrossilício-manganês: +173%
- Alumínio em bruto: +107%
- Óleos combustíveis: +102%
- Etanol: +95,2%
- Óleo essencial de laranja: +75,8%
- Maçãs frescas: +29%
O caso mais curioso? Transformadores elétricos. Exportação zero no mesmo período de 2025. Em 2026: US$ 39 milhões (R$ 209 milhões). Um mercado que não existia para o Brasil na UE nasceu do nada em cinco meses.
Por que o ministro errou (ou inflou) o número
Em evento com jornalistas neste mês, Márcio Elias Rosa cravou 30% de crescimento das exportações totais do Brasil para a UE. O Mdic, ontem, restringiu o recorte aos produtos beneficiados pelo acordo e chegou a 21%. A discrepância expõe dois problemas:
- O dado oficial não isola o efeito-tarifa de outros vetores (câmbio, safra, demanda cíclica).
- A comunicação do governo mistura “exportações totais para o bloco” com “exportações dos itens do acordo” — métricas diferentes, narrativas distintas.
Para o empresário, a lição é prática: não confie em manchetes de gabinete. Olhe a lista de produtos com tarifa zero imediata e verifique se seu portfólio se encaixa.
O tamanho do prêmio — e o risco de ler só o resumo
O acordo cobre um mercado de 720 milhões de consumidores e PIB combinado acima de US$ 22 trilhões (R$ 118 trilhões). A redução tarifária é escalonada: alguns setores zeram na largada; outros levam 10 a 15 anos. O que o Mdic não disse na coletiva: a maior parte do crescimento atual concentra-se justamente nos itens de eliminação imediata. O ganho real virá quando as barreiras caírem para proteínas, calçados, autopeças e químicos — setores onde o Brasil tem escala, mas ainda paga tarifa cheia.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o 21% vira rotina ou vira anedota:
- Ratificação parlamentar na UE: a aplicação provisória pode cair se algum parlamento nacional travar. Itália e França já sinalizaram resistências agrícolas.
- Câmbio e frete: o real valorizado e o custo logístico comprimem margens justamente nos produtos de menor valor por quilo.
- Regras de origem: certificação errada derruba o benefício. Muitas PMEs ainda não têm estrutura para comprovar conteúdo regional.
Enquanto o governo comemora o abacate, o dinheiro grande — e sustentável — está nas cadeias que ainda esperam a tarifa zerar. Quem mapear esses setores agora, antes da concorrência acordar, colhe sozinho. Quem espera o anúncio oficial, divide o bolo.
