Economia

O segredo por trás da fuga de R$ 2,8 bi da Bolsa em um só dia…

Gráfico mostra saída de R$ 2,8 bi de investidores estrangeiros da B3 após vitória de Lula nas eleições 2022
Fluxo estrangeiro na B3 registra maior saída desde agosto com desmonte do trade eleitoral após segundo turno.

Investidores estrangeiros sacaram R$ 2,8 bilhões da B3 na segunda-feira (26), logo após a confirmação da vitória de Lula no segundo turno. O volume só não superou a saída de R$ 2,9 bilhões registrada na sexta-feira anterior — a maior desde agosto.

Mas o que parece pânico à primeira vista esconde uma lógica fria: o desmonte de uma aposta que não se confirmou. Entenda o que moveu o capital e o que vem pela frente.

O “trade eleitoral” desfeito às pressas

Na sexta-feira, véspera da votação, o fluxo já era negativo em R$ 2,9 bi. Segundo Marcos Praça, da Zero Markets Brasil, o movimento reflete a redução deliberada de posições por parte de fundos internacionais que não queriam carregar risco durante a apuração.

“Identifico um desmonte do trade eleitoral. O investidor estrangeiro optou por não se expor pela incerteza”, resume Praça. Na segunda, a saída prosseguiu porque o cenário de alternância de poder — precificado nas semanas anteriores — não se materializou.

Dados que colocam o episódio em perspectiva

Apesar dos dois dias de sangria, o saldo mensal e anual segue no azul. Veja os números da B3:

  • Outubro (até o momento): entrada líquida de R$ 13,3 bilhões
  • Acumulado em 2026: saldo positivo de R$ 45,4 bilhões
  • Pós-primeiro turno: aportes de R$ 10,6 bi em um único pregão

Ou seja: a retirada recente devolve apenas uma fração do que entrou nos meses anteriores. O mercado não está saindo do Brasil; está reposicionando apostas.

O efeito dominó nos ativos de risco

A reação não ficou restrita às ações. No mesmo pregão, o Ibovespa despencou 13,88%, fechando aos 176.608 pontos — a maior queda diária desde março de 2020. A B3 precisou acionar o circuit breaker para conter a liquidação.

O dólar, por sua vez, registrou a maior valorização diária desde 1999. Os juros futuros saltaram mais de 250 pontos-base, sinalizando que o mercado passou a cobrar prêmio de risco mais alto para financiar o governo.

Por que o fiscal virou o centro das atenções

A vitória de Lula reacendeu o temor de que o novo governo mantenha uma política fiscal expansionista, sem o ajuste rigoroso que parte do mercado esperava com a chapa adversária. Taxas mais altas encarecem crédito, comprimem lucros corporativos e pressionam a Bolsa.

Grandes casas já ajustaram recomendações:

  • J.P. Morgan: rebaixou real e títulos públicos de overweight para marketweight
  • Citi: reduziu exposição recomendada a ações brasileiras
  • BCA Research: cortou avaliação do Brasil frente a pares emergentes

O que observar daqui para frente

Felipe Cima, da Manchester Investimentos, resume o cenário: “As movimentações devem seguir com bastante amplitude nos próximos dias. O mercado continua no limbo enquanto espera a definição da equipe econômica”.

Três variáveis vão ditar o ritmo nas próximas semanas: anúncio do ministro da Fazenda, sinalizações sobre a âncora fiscal e a primeira comunicação do Banco Central sob o novo governo. Quem acompanha fluxo de estrangeiro deve monitorar se os R$ 45 bi de saldo anual resistem ou se a reversão se aprofunda. A resposta virá nos dados diários da B3 — e na composição do primeiro escalão.