O temido “El Niño bomba” ainda não cumpriu a ameaça de seca no Sul, mas o excesso de umidade já atrapalha o plantio do arroz e do feijão. Enquanto a soja avança a passos largos, o cereal básico da mesa do brasileiro vive um jogo de forças entre custos altos, demanda fraca e uma janela de exportação que se abre.
O que está no radar do produtor agora
Segundo o analista Vlamir Brandalizze, o volume de chuva no Rio Grande do Sul está acima da média histórica para o período. O resultado prático: só 50% da área projetada foi semeada até aqui, contra 70% em anos normais. A cultura exige “água no pé e sol na cabeça” — o céu encoberto e o frio travam o desenvolvimento inicial das lavouras.
Na soja, o cenário é oposto. Mato Grosso acelerou o plantio na última semana. No Paraná, a chuva deu uma trégua e as máquinas voltaram a campo. Mato Grosso do Sul e Goiás também mostram boa evolução. O milho de verão entra na reta final com otimismo: a área da primeira safra cresceu este ano.
Feijão: frio fora de hora ameaça a florada
O alerta mais forte vem do feijão. No Paraná e no sudoeste de São Paulo, termômetros abaixo de 15°C provocam abortamento da flor. A tendência, nas palavras do analista, é de “produção baixa” nas duas regiões tradicionais. O impacto direto pressiona a oferta interna num momento em que os estoques já estão apertados.
Arroz: a conta entre área, custo e preço
- Área 2026/27: 1,55 milhão de hectares no total.
- Rio Grande do Sul: recuo para 850 mil hectares.
- Tocantins: expansão de 95 mil para 110 mil hectares.
- Produção estimada: 10,5 milhões de toneladas (queda frente ao ciclo anterior).
O preço reagiu forte no segundo semestre: saiu de R$ 50 a saca na safra para picos de R$ 82 no Sul. Nas últimas semanas, porém, arrefeceu para R$ 78–79. Três forças explicam o recuo: exportações em bom ritmo, menor entrada de arroz do Mercosul e varejo queimando estoques comprados na baixa. A indústria resiste a recompor posições à espera de sinais macroeconômicos.
Demanda interna: o freio invisível
Brandalizze aponta um dado comportamental relevante: a demanda por arroz e feijão não cresce, apesar de serem itens essenciais. A população endividada reduz compras e parte da renda alimentar migra para apostas. Sem consumo aquecido, o repasse de alta de custo ao consumidor final trava — e a margem do produtor fica comprimida mesmo com saca acima de R$ 75.
O risco climático real e a carta na manga
Para o arroz, o El Niño só vira problema se trouxer enchentes de grande magnitude. Enchentes menores são manejáveis; as chuvas atuais, inclusive, encheram as lagoas de irrigação. “Para o arroz, é mais complicado a falta de água do que o excesso”, resume o analista. Isso dá fôlego para a safra, desde que o sol apareça nas próximas semanas.
Janela de exportação: 2 milhões de toneladas até novembro
O mercado externo joga a favor. Ásia, grande ofertadora global, colhe menos por problemas climáticos e eleva preços. O Brasil ganha competitividade na América Central e na África. A projeção é embarcar 2 milhões de toneladas de arroz em casca já em novembro — volume que ajuda a drenar o excedente interno e sustenta o patamar de preços ao produtor.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis ditam o rumo do mercado: (1) a volta do sol no Sul para destravar o desenvolvimento do arroz; (2) a disposição da indústria em recompor estoques diante da safra menor projetada; (3) o câmbio e a renda real, que determinam se o varejo consegue repassar custos sem perder volume. Se o clima colaborar e a exportação mantiver o ritmo, a saca pode voltar a testar R$ 80 ainda neste trimestre.
