O saldo de rotativo e cheque especial nas mãos de quem ganha acima de dez salários mínimos quase dobrou em doze meses, saltando 93% em termos reais e atingindo R$ 30,3 bilhões. A fatia desse grupo no total emprestado pulou de 13,1% para 23,3%, enquanto a baixa renda viu seu endividamento nessas linhas recuar. Por que os mais ricos estão correndo para o crédito mais caro do mercado?
A resposta não é simples, mas os dados do Banco Central revelam uma inversão histórica que afeta diretamente a estratégia dos bancos e a saúde financeira das classes médias e altas.
O mapa da virada: quem deve, quanto deve
O levantamento no SCR (Sistema de Informações de Créditos) mostra um gradiente claro: quanto maior a renda, maior a aceleração.
- Acima de 20 salários mínimos: participação no estoque quase dobrou, de 5,3% para 10,5%.
- Entre 5 e 10 salários: peso subiu de 13,8% para 17,2%.
- Até 5 salários: saldo caiu 10,6% e a fatia recuou de 69,4% para 57,4%.
São linhas emergenciais com juros de 15,18% ao mês no rotativo e 7,43% no cheque especial (dados de agosto do BC). Desde 2024, uma regra limita o endividamento total ao dobro do valor original — teto de 100% de juros acumulados —, mas isso não freou a corrida.
Por que os bancos abriram a torneira para o topo
A inadimplência da baixa renda disparou nos anos pós-pandemia, forçando as instituições a redirecionarem a oferta. Segundo Luiz Fernando Castelli, da Febraban, “a capacidade da renda mais baixa de absorver esse crédito estava mais limitada”.
O resultado: limites maiores, mais cartões ofertados e abordagem ativa de clientes de alta renda. Lauro Gonzalez, da FGV, resume: “O próprio mercado promoveu ajustes” diante do nível de calote.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O fator agronegócio e a crise invisível
Parte do salto na faixa acima de 20 salários pode estar ligada ao campo. Muitos produtores rurais tomam crédito como pessoa física e, diante da crise no setor, recorrem ao rotativo e ao cheque especial como última reserva de liquidez.
Enquanto isso, o calote nessas modalidades avança mais rápido entre os mais ricos: na faixa de 10 a 20 salários, a inadimplência subiu 14 pontos percentuais, chegando a 40,4%. Na de 1 a 2 salários, a alta foi de cerca de 5 pontos, para quase 56%.
Quando o consumo vira performance
Há ainda um componente comportamental. Laura Carvalho (USP) aponta para o “consumo aspiracional”: redes sociais expõem um padrão de vida que quem ganha cinco salários — já no topo 10% da pirâmide — tenta replicar, embora esteja muito mais perto da base do que do topo real.
Thiago Godoy, da Papai Financeiro, vê isso na prática: “Clientes com renda familiar de R$ 20 mil fazem festas de R$ 60 mil parceladas em 10 vezes. A relação com o dinheiro é emocional, não racional.”
O caso real: da estabilidade ao limite estourado
Isabel Barreto, 65 anos, recebia R$ 13 mil mensais entre aposentadoria, consultoria e lucros do restaurante. Em 2024, processos trabalhistas e a regularização de um imóvel herdado quebraram o fluxo. Chegou a acumular R$ 20 mil em três cartões. “Se a fatura era R$ 3.000, pagava R$ 2.000 e parcelava o resto.”
Hoje, reorganizada, entende que renda variável não serve de lastro e que reserva de emergência não é opcional.
O que observar daqui para frente
Três vetores ditam o próximo capítulo: (1) a trajetória da Selic e seu impacto no custo do rotativo; (2) a recuperação ou aprofundamento da crise no agronegócio; (3) a capacidade dos bancos de manter a oferta sem deteriorar a qualidade da carteira de alta renda.
Para quem gere negócios ou investe, o sinal é claro: o endividamento deixou de ser “problema dos pobres”. A exposição ao crédito caro subiu justamente no segmento que move o consumo de maior valor agregado. Monitorar a inadimplência acima de 10 salários mínimos virou indicador antecedente de demanda.
