Economia

O silêncio dos presidenciáveis sobre 1,8 milhão de trabalhadores invisíveis

Entregadores de aplicativo em motos aguardando pedidos em rua urbana brasileira
1,8 milhão de trabalhadores por aplicativo seguem sem direitos básicos enquanto promessas eleitorais são esquecidas.

A regulamentação do trabalho por aplicativo — promessa central de Lula em 2022 — desapareceu do radar eleitoral de 2026. Enquanto isso, 1,8 milhão de motoristas e entregadores seguem sem previdência, sem piso salarial e sem garantia de direitos básicos.

O setor cresce a cada trimestre com a chegada de novas plataformas de delivery, mas o vácuo legislativo beneficia apenas um lado da equação. Entenda por que o tema travou e o que pode forçar a mão do próximo governo.

O tamanho do problema em números

Dados do IBGE confirmam: a economia de plataformas já absorve 1,8 milhão de pessoas no Brasil. Para efeito de comparação, esse contingente supera a população de nove capitais estaduais. Sem enquadramento jurídico claro, esses profissionais ficam expostos a:

  • Ausência de contribuição patronal para o INSS
  • Jornadas sem limite legal e sem adicional noturno
  • Desligamento unilateral por algoritmos, sem direito a defesa
  • Acidentes de trabalho sem cobertura securitária obrigatória

O custo dessa invisibilidade recai sobre o Estado — que arca com assistência social quando a renda cai — e sobre as próprias plataformas, que convivem com insegurança jurídica crescente.

Por que o debate sumiu das urnas

Especialistas apontam três fatores convergentes. Primeiro, o esgotamento da categoria após seis anos de mobilizações intensas, incluindo os “breques dos apps” durante a pandemia. O cansaço reduziu a pressão nas ruas e, consequentemente, a urgência nas campanhas.

Segundo, a fragmentação da representação sindical. Motoristas e entregadores não seguem o modelo tradicional de organização: estão pulverizados em dezenas de associações, cooperativas e coletivos informais. Isso dificulta a negociação tripartite e enfraquece o poder de barganha política.

Terceiro, a ascensão da chamada “bancada das big techs” no Congresso — parlamentares alinhados à desregulamentação do ambiente digital. A tendência é de fortalecimento desse bloco na próxima legislatura.

O que cada campanha propõe (e o que omite)

O programa de Flávio Bolsonaro (PL) promete “garantir a manutenção das oportunidades” e “efetiva proteção social e previdenciária”, mas não apresenta minuta de projeto, nem define fonte de custeio, nem estabelece parâmetros de remuneração mínima. A campanha não respondeu a questionamentos técnicos enviados pela imprensa.

O governo Lula, por sua vez, promete “consolidar um sistema de proteção” com regras sobre natureza do vínculo, remuneração, condições de trabalho, direitos previdenciários e transparência algorítmica. O problema: a mesma promessa foi feita em 2022 e não saiu do papel nos quatro anos de mandato.

Um grupo tripartite chegou a produzir projeto de lei com a digital do Ministério do Trabalho. O texto travou no Congresso. Uma nova versão, sob relatoria do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), avançou até o governo retirar apoio — após o ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) pressionar pela manutenção do piso por corrida, que as plataformas rejeitam frontalmente.

O nó do valor mínimo por viagem

O ponto de ruptura é conhecido: governo e trabalhadores defendem piso por corrida; plataformas alegam inviabilidade econômica e ferimento à livre concorrência. O relator Coutinho retirou a previsão do texto para tentar consenso. A reação foi imediata: categoria protestou, Boulos interveio, o governo recuou.

“O Boulos politizou muito a questão e inviabilizou [o projeto]”, disse Coutinho à Folha. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, discorda: afirmou em agosto que o Congresso “preferiu a omissão de não enfrentar essa divergência” e sinalizou retomada do debate apenas em 2027, condicionada à reeleição.

Enquanto isso, linhas de crédito para aquisição de veículos atenderam 67 mil profissionais, mas esbarraram no endividamento pré-existente da categoria — gerando mais frustração do que alívio.

O Brasil na contramão da região

México, Uruguai, Colômbia e Chile já regulamentaram o trabalho de motoristas e entregadores de plataformas. O Brasil, maior economia da América Latina, segue sem marco legal. A Convenção 190 da OIT e as discussões em curso na Organização Internacional do Trabalho ampliam o escopo para além de transporte e delivery: incluem reparos, faxina, programação freelance e outras modalidades de “gig economy”. O debate brasileiro permanece estreito.

O consenso possível e o que vem a seguir

Pesquisadores do Cebrap e de Yale identificam um avanço silencioso: há convergência entre governo, parte das plataformas e segmentos da categoria sobre a necessidade de contribuição previdenciária com participação patronal. Esse pode ser o ponto de partida viável para 2027.

Kenzo Soares, pesquisador de Yale, resume: “O que fez diferença na aprovação do fim da escala 6×1 foi o movimento de base. É a mobilização dos próprios trabalhadores de aplicativo que vai dar centralidade a essa pauta.”

O que observar nos próximos meses

Três sinais indicarão se a regulamentação sai do papel no próximo mandato:

  • Rearticulação da categoria em mobilizações nacionais coordenadas
  • Posicionamento formal das plataformas sobre contribuição previdenciária patronal
  • Composição das comissões temáticas na Câmara e no Senado a partir de 2027

Para investidores e gestores de plataformas, o cenário exige precificação de risco regulatório. Para o Estado, a conta da omissão chega na forma de passivo previdenciário e pressão assistencial. Para 1,8 milhão de trabalhadores, a espera por direitos básicos completa mais um ciclo eleitoral sem resposta.